Capítulo 03

Before I Was Real

13 min2.847 palavras
Abertura do capítulo 3 — Before I Was Real

menor, não em qualidade, mas em peso. Como se a música nova tivesse aberto uma fenda no bar e as outras precisassem tocar por cima dela apenas para lembrar às pessoas que ainda estavam em uma noite comum, em um lugar comum, sob uma chuva comum. Jhon cantou o restante do set com precisão. Entrou onde precisava entrar. Segurou as pausas. Ajustou a guitarra. Olhou para a banda. Agradeceu ao público. Fez tudo certo. Mas uma parte dele continuou voltando para o fundo do bar.

A mulher do guarda-chuva preto havia se sentado perto de uma coluna lateral. Não estava tentando chamar atenção. Pelo contrário: parecia escolher o lugar exato onde pudesse existir sem ser completamente vista. O casaco escuro ainda tinha marcas de chuva nos ombros. O cabelo, preso de qualquer jeito, soltava alguns fios ao redor do rosto. Ela escrevia em um caderno pequeno, parava, olhava para o palco, escrevia de novo. Jhon não sabia por que reparou nisso. Muita gente escrevia em bares. Ou talvez não muita. Talvez ele apenas nunca tivesse prestado atenção.

Quando a última música terminou, os aplausos vieram mais soltos. Pessoas se levantaram, algumas se aproximaram do palco, outras foram para o bar, outras voltaram aos próprios casacos e conversas. O The Hollow Note recuperou sua respiração normal: copos batendo, cadeiras arrastando, cabos sendo enrolados, risadas pequenas ocupando o espaço que a música deixava para trás. Ravi apareceu ao lado de Jhon enquanto desligava um pedal.

— Aquilo aconteceu ou a equalização finalmente me deu alucinações? Jhon enrolou o cabo da guitarra. — Aquilo o quê? — Não faz essa cara. Você sabe. — A música funcionou. — “Funcionou” é uma palavra criminosa para o que aconteceu. Jhon guardou o cabo no case. — O público respondeu bem. Ravi levou a mão ao peito.

— Um dia eu vou abrir você e encontrar uma planilha no lugar do coração. Jhon olhou para ele. Ravi ergueu as mãos.

— Metaforicamente. Pelo amor de qualquer entidade que ainda aceite músicos. Jhon fechou o case. — Preciso falar com o técnico. — Claro que precisa. — Tem retorno em excesso no segundo refrão. — E falta terapia no vocalista. Jhon não respondeu.

Ravi sorriu, mas o sorriso diminuiu um pouco antes de ele se afastar. — Ei. Jhon parou.

— Foi bom — Ravi disse, desta vez sem piada. — De verdade. Só não sei se foi bom do jeito que eles queriam ou do jeito que você queria. Jhon acompanhou o olhar dele até a mesa lateral.

Hartman continuava sentado, tablet sobre a mesa, copo quase cheio diante de si. Conversava com o dono do bar, mas não parecia realmente interessado nele. De tempos em tempos, seus olhos passavam pelo salão como se conferissem pontos invisíveis em um mapa. — Não existe diferença — Jhon disse. Ravi soltou uma risada curta. — Claro que existe. E saiu antes que Jhon pudesse perguntar qual.

Jhon levou a guitarra para a lateral do palco, conversou rapidamente com o técnico de som e apontou os ajustes para a próxima passagem. Fez isso porque precisava fazer. Porque era mais fácil falar de retorno, ganho, compressão e microfonia do que pensar na mulher que escrevera alguma coisa depois de ouvi-lo cantar.

Quando voltou ao palco para pegar a jaqueta, ela não estava mais na mesa. Por um instante, sentiu algo parecido com decepção. O sentimento passou rápido demais para ter nome. Então ele a viu perto do balcão.

Ela pagava alguma coisa, o caderno preso debaixo do braço, o guarda-chuva pendurado no pulso. Havia uma cautela no modo como ela se movia, não medo, mas economia. Como se tivesse aprendido a não ocupar espaço demais no mundo. Jhon vestiu a jaqueta. Poderia ir embora. Poderia ficar com a banda. Poderia falar com Hartman. Poderia revisar os dados do pré-teste. Em vez disso, caminhou até o balcão. Não rápido. Não devagar. Apenas o bastante para chegar antes que ela saísse. — Você escreveu durante a música — ele disse. A frase saiu sem preparação. Ela virou o rosto.

De perto, Jhon percebeu que os olhos dela eram mais claros do que pareciam à distância. Não claros de cor, exatamente. Claros de atenção. Olhos de quem estava acostumada a observar antes de decidir se o mundo merecia resposta. — Isso é permitido? — ela perguntou.

A voz era baixa, um pouco rouca, talvez pela chuva ou pelo cansaço. Jhon demorou meio segundo. — Não há regra contra. — Então escrevi.

Ela colocou algumas moedas no balcão. O barman as recolheu e se afastou, deixando os dois em uma pequena ilha de silêncio cercada por ruído. — Eu sou Jhon — ele disse.

Ela olhou para ele como se a informação fosse conhecida e insuficiente. — Eu sei. Não havia admiração na resposta. Nem arrogância. Apenas fato. — E você? — Sara. O nome entrou nele de maneira simples. Sara. Duas sílabas. Nenhuma explicação. — Você já conhecia a banda? — Jhon perguntou. — Conhecia o nome. — Isso não responde. — Então não muito. Ele quase sorriu. — Entrou por acaso?

Sara olhou para a porta. Do lado de fora, a chuva continuava riscando a noite. — Eu entrei por causa da chuva. — E ficou por causa da música? Ela voltou os olhos para ele. — Talvez. Jhon esperou.

A maioria das pessoas preenchia esse tipo de pausa por desconforto. Falava algo sobre a voz, a guitarra, o refrão, o clima, a banda. Sara não. Ela parecia confortável demais no silêncio. Ou talvez apenas não tivesse medo dele. — A música é nova? — ela perguntou. — Sim. — Ainda parecia. — Isso é ruim?

— Não. — Ela ajeitou o caderno contra o corpo. — Parecia que ela ainda estava descobrindo o que queria ser.

Jhon sentiu a frase tocar em algum ponto próximo demais do que Hartman havia dito. Descoberta, não conclusão. — Você escreve sobre música? — perguntou. — Às vezes escrevo sobre o que a música deixa quando acaba. — E o que essa deixou? Sara olhou para o caderno. Por um momento, Jhon achou que ela não responderia. — Uma pessoa tentando provar que existe. O bar continuou fazendo barulho ao redor deles.

Alguém riu perto da entrada. Ravi discutia alguma coisa com o baterista. Uma cadeira arrastou no chão. O gelo caiu em um copo. A chuva bateu contra a porta quando alguém entrou. Mesmo assim, a frase dela pareceu chegar inteira. Uma pessoa tentando provar que existe. Jhon não gostou do que sentiu.

Não porque a frase fosse ofensiva. Não era. Era precisa demais. E precisão, quando vinha de alguém que não trabalhava na Lutheryn, parecia sempre um tipo de invasão.

— É uma leitura forte para uma música que você ouviu uma vez — ele disse. — Algumas coisas não precisam repetir para machucar. Jhon ficou em silêncio. Sara percebeu. — Desculpa. Eu não quis dizer machucar como crítica. — Eu sei. — Sabe? — Acho que sim. Ela inclinou um pouco a cabeça.

— Você responde como se conferisse a frase antes de deixar ela sair. Jhon encarou-a. — Todo mundo faz isso. — Não. Todo mundo se arrepende depois. Dessa vez, ele sorriu. Pequeno. Quase nada. Mas sorriu. Sara viu.

E, por alguma razão, aquilo pareceu mudar a expressão dela mais do que qualquer elogio mudaria. Como se tivesse encontrado uma falha pequena em uma parede muito lisa. — Você mora por aqui? — Jhon perguntou. — Depende do que “por aqui” quer dizer. — Greyline. — Perto o suficiente para chegar molhada em qualquer lugar. — Isso descreve metade de Veldmoor. — Então sim. Jhon olhou para o guarda-chuva no pulso dela. — Vai esperar a chuva diminuir? Sara acompanhou o olhar dele. — Em Veldmoor? — Justo. Ela deveria ter ido embora naquele momento.

Havia uma lógica clara para isso. O show acabara. A bebida estava paga. A chuva talvez nunca diminuísse, mas as pessoas aceitavam esse tipo de derrota com alguma dignidade. Jhon também deveria voltar para casa, guardar a guitarra, dormir o bastante, acordar cedo, voltar à Lutheryn Labs, responder relatórios, fingir que a noite havia sido apenas um pré-teste bem-sucedido. Mas nenhum dos dois se moveu. — O que você escreveu? — ele perguntou. Sara apertou o caderno contra o peito. — Você pergunta isso para todo mundo que escreve no seu show? — Não. — Então por que eu?

A resposta correta seria: porque você estava olhando como se a música fosse uma pergunta. Ou: porque eu quase perdi a entrada quando vi você. Ou ainda: porque, quando você escreveu, pareceu que sabia alguma coisa que eu não sei. Mas Jhon não disse nada disso. — Curiosidade — respondeu. Sara avaliou a palavra.

— Curiosidade é uma palavra que as pessoas usam quando ainda não querem admitir interesse.

— E interesse é uma palavra que as pessoas usam quando querem tornar curiosidade mais perigosa. Ela sorriu. Não abertamente. Mas o bastante. — Boa resposta. — Conferi antes de deixar sair. Sara riu baixo.

O som não combinava com o bar. Não porque fosse delicado demais, mas porque parecia íntimo demais para aquele lugar. Jhon sentiu o efeito físico do riso antes de compreender a razão. Do outro lado do salão, Hartman observava. Não de maneira óbvia. Hartman nunca fazia nada de maneira óbvia.

Ele mantinha uma conversa com o dono do bar, mas seus olhos encontravam a posição de Jhon e Sara com a regularidade discreta de um sensor. O tablet sobre a mesa exibia linhas e índices que mudavam em silêncio. Pico de atenção localizada: persistente Interação pós-performance: espontânea Sujeito vocal: permanência no ambiente acima do padrão Variável externa: não identificada Hartman tocou uma vez na tela. A informação foi salva. No balcão, Sara finalmente abriu o caderno. — Eu não costumo mostrar. — Tudo bem. — Isso não significa que eu vou mostrar. — Eu entendi. Ela olhou para ele por cima da página. — Entendeu rápido. — Já ouvi isso hoje. — Imagino. Jhon não perguntou o que ela queria dizer.

Sara passou os dedos pela borda da folha, hesitou e então virou o caderno para ele.

A letra era inclinada, um pouco irregular, como se tivesse sido escrita durante movimento. Ele canta como quem está procurando a própria prova de vida. Jhon leu uma vez. Depois outra. Sentiu algo se contrair no peito.

Não dor. Não exatamente. Mais como uma porta sendo tocada do lado de fora.

— É sobre a música — Sara disse, talvez ao perceber o silêncio. — Não sobre você. Jhon ainda olhava para a frase. — Qual é a diferença? Sara não respondeu imediatamente. Quando respondeu, a voz veio mais baixa. — Às vezes nenhuma. Ele levantou os olhos.

Por um instante, ficaram próximos demais de uma verdade que nenhum dos dois tinha como sustentar. Era absurdo. Eles haviam se conhecido havia minutos. Ela era uma mulher que entrou por causa da chuva. Ele era um vocalista que tinha acabado de cantar uma música nova. Nada justificava aquela sensação de familiaridade impossível. Mas Veldmoor fazia isso às vezes.

A cidade juntava estranhos sob marquises, em bares, em pontes, em vagões, e deixava que a chuva fingisse ser acaso. — Eu não sei se gostei — Jhon disse. — Da frase? — De ela estar certa. Sara fechou o caderno devagar. — Então está? Ele poderia ter negado.

Seria fácil. Bastava sorrir, agradecer, dizer que era uma boa imagem. Artistas faziam isso o tempo todo quando o público chegava perto demais. Transformavam verdade em interpretação e interpretação em elogio. Mas Jhon estava cansado. E havia algo em Sara que tornava a mentira mais trabalhosa. — Talvez — disse. Ela aceitou o talvez como se fosse uma resposta inteira. — Então a música funcionou. — Você trabalha com isso? — Com música? — Com entender as coisas. Sara olhou para o copo vazio sobre o balcão. — Não profissionalmente. — E profissionalmente?

— Eu reviso textos para uma editora pequena. Às vezes escrevo coisas que ninguém pediu. Às vezes cuido de uma pessoa que precisa mais de mim do que eu sei oferecer. A última frase saiu sem ornamento. Jhon percebeu, mas não soube como tocar nela. — Sua mãe? — perguntou, mais por intuição do que por lógica. Sara olhou para ele. A pergunta tinha passado perto demais. — Sim. — Desculpa. — Não precisa pedir desculpa por acertar. Jhon guardou aquilo. Não precisa pedir desculpa por acertar. No palco, alguém chamou por ele. — Jhon, vamos fechar as coisas.

Era Ravi, segurando dois cabos e uma expressão que dizia que ele estava vendo mais do que deveria. Jhon levantou a mão em resposta. — Preciso desmontar. Sara assentiu. — Eu preciso ir antes que a chuva decida virar mar. Ela pegou o guarda-chuva.

Jhon sentiu, de novo, aquela pequena pressão no peito. A mesma de quando achou que ela tinha ido embora antes. Decepção, talvez. Ou só interrupção. — Você vem sempre aqui? — perguntou. Sara colocou a alça da bolsa no ombro. — Não. — Mas pode vir de novo. — Posso. — Isso foi uma resposta ou uma tentativa?

Ela percebeu a frase devolvida de algum lugar da conversa dele com Ravi que ela não ouvira. Ou talvez apenas achasse graça do formato. — As duas coisas podem ser verdade — disse. Jhon ficou parado. Sara abriu o guarda-chuva antes de sair.

Na porta, a luz do bar desenhou a silhueta dela contra a chuva. Por um instante, ela pareceu parte da própria cidade: casaco escuro, caderno contra o corpo, rosto meio escondido pela noite, como se Greyline tivesse inventado alguém só para atravessar aquela música. Então ela saiu.

Jhon observou até o guarda-chuva preto desaparecer entre os reflexos da calçada. Ravi apareceu ao lado dele. — Você sabe que ainda tem cabo no palco, né? — Sei.

— Ótimo. Porque por uns vinte segundos achei que você tinha esquecido a existência do mundo físico. Jhon voltou para o palco. — Ela escreveu sobre a música. — Claro que escreveu. — Por que “claro”? Ravi colocou um cabo enrolado dentro da caixa.

— Porque qualquer pessoa que não estivesse morta por dentro escreveria alguma coisa depois daquilo. Jhon pegou o case da guitarra. — Você está exagerando. — Eu sou músico. É literalmente minha função social. Do outro lado do bar, Hartman levantou-se.

Jhon percebeu apenas quando ele já estava perto da saída. O chefe vestiu o casaco com calma, falou algo ao técnico de som e passou por Jhon sem parar. — Boa noite — disse. — Boa noite. Hartman deu dois passos, então parou. — Jhon. Ele virou. Hartman olhou para o case da guitarra, depois para o rosto dele. — Você deixou a música encontrar você. Jhon não soube responder. Hartman sorriu de leve. — Amanhã conversamos sobre o que ela encontrou. E saiu para a chuva. Ravi, que fingia não ouvir, arregalou os olhos.

— Ele fala assim naturalmente ou treina em frente ao espelho com trovões ao fundo? Jhon não riu. A frase de Hartman permaneceu. O que ela encontrou. Não quem. O que. Jhon voltou para casa depois da meia-noite.

Greyline estava mais vazia, embora nunca completamente. Havia sempre alguém atravessando uma rua tarde demais, sempre uma janela acesa, sempre um carro passando devagar por poças fundas, sempre uma música vazando de algum lugar sem rosto. Ele carregava a guitarra em uma mão e o caderno na mochila. No bolso da jaqueta, tinha um guardanapo do The Hollow Note. Não se lembrava de ter guardado.

Só percebeu quando chegou ao apartamento e tirou as coisas dos bolsos.

O guardanapo estava dobrado uma vez. Não havia nada escrito. Apenas o logo borrado do bar em preto. Mesmo assim, Jhon ficou olhando para ele. Depois o colocou sobre a mesa, ao lado do próprio caderno. Abriu o notebook por hábito. Uma notificação da Lutheryn Labs apareceu quase imediatamente. BIWR — relatório preliminar disponível Pré-teste: concluído Resposta geral: acima do previsto Aderência vocal: alta Interação externa: em análise Jhon leu. Interação externa.

Sabia o que significava. Tecnicamente, podia significar qualquer contato relevante entre artista e público depois da performance. Comentários, aproximações, conversas, registro espontâneo, intenção de retorno. Mesmo assim, pensou em Sara. Não porque o relatório dissesse o nome dela. Não dizia. Mas porque a frase dela ainda estava ali. Ele canta como quem está procurando a própria prova de vida. Jhon abriu o próprio caderno.

Na última página, abaixo das anotações técnicas da noite anterior, escreveu: Sara. Ficou olhando para o nome. Depois, como se precisasse justificar, acrescentou: Entrou por causa da chuva. Ficou por causa da música. A frase pareceu boa. Mas incompleta. Ele riscou a segunda parte. Escreveu: Ficou porque ouviu alguma coisa. Parou. Depois fechou o caderno. Do lado de fora, a chuva continuava. Na tela do notebook, o relatório preliminar aguardava abertura. Jhon não abriu.

Pela primeira vez em muito tempo, deixou um arquivo da Lutheryn esperando. Apagou a luz. Foi para o quarto. E demorou mais do que o normal para dormir.