Capítulo 01

Lutheryn Labs

29 min6.326 palavras
Abertura do capítulo 1 — Lutheryn Labs

Veldmoor vivia sob um véu cinza. Não era neblina. Não era apenas chuva. Não era só o céu fechado sobre os prédios antigos. Era uma espécie de luto suspenso.

Uma camada pálida e permanente que cobria telhados, pontes, fachadas, vitrines, rostos e memórias. Como se, em algum ponto da história, a cidade tivesse perdido algo essencial — algo tão grande que ninguém mais lembrava o nome — e desde então continuasse existindo apenas por hábito. O sol quase nunca aparecia.

Quando surgia, vinha fraco, distante, filtrado por nuvens baixas que pareciam apoiar o próprio peso nos ombros dos edifícios. Não aquecia. Não dourava as ruas. Não fazia promessas. Apenas revelava por algumas horas aquilo que a noite escondia melhor: paredes úmidas, janelas opacas, letreiros enferrujados, fios cruzando o céu como nervos expostos e poças onde a cidade se via deformada. Em Veldmoor, a chuva não começava. Ela continuava.

Afinava até virar poeira líquida sobre os telhados. Engrossava até transformar avenidas em espelhos quebrados. Sumia por algumas horas, às vezes por um dia inteiro, mas nunca ia embora de verdade. Permanecia nos casacos, nos ossos das casas, no cheiro das escadas antigas, nas páginas onduladas dos livros esquecidos perto das janelas. A cidade parecia feita para guardar água. E segredos.

Veldmoor nascera às margens do Rio Vel, uma faixa escura que atravessava a cidade como uma veia aberta. Durante trezentos anos, fora porto, fábrica, banco, abrigo, ruína, promessa e mentira. Homens haviam enriquecido ali. Famílias haviam desaparecido ali. Igrejas haviam sido erguidas para pedir perdão por pecados que ninguém registrou. Pontes haviam sido construídas para unir bairros que continuavam separados por coisas mais profundas que o rio. Com o tempo, Veldmoor aprendeu a se reinventar.

Transformou armazéns em galerias. Fábricas em estúdios. Bancos falidos em prédios de tecnologia. Bairros esquecidos em campanhas imobiliárias. O passado era pintado, rebatizado, iluminado por letreiros novos. Mas nada ali desaparecia completamente. A cidade apenas cobria as feridas com vidro.

Ao norte, Ashford brilhava em aço, concreto e fachadas espelhadas. Era o bairro das recepções silenciosas, dos elevadores sem espelho, dos crachás que abriam portas antes que alguém perguntasse quem você era. As torres corporativas subiam limpas demais contra o céu sem cor, refletindo guarda-chuvas pretos e rostos que pareciam sempre atrasados para alguma coisa sem nome. Ali, até a chuva parecia obediente.

Caía em linhas retas sobre calçadas lavadas, escorria por vidros escuros, desaparecia em ralos discretos. Ashford não permitia poças profundas. Não permitia sujeira visível. Não permitia tristeza sem agenda. Era ali que ficava a Lutheryn Labs. No décimo segundo andar de um prédio sem nome, na Rua Calloway.

Não havia letreiro monumental. Não havia fachada chamativa. Apenas uma marca vermelha ao lado da porta giratória: uma cicatriz vertical, irregular, elegante demais para parecer acidente.

Do lado de fora, a Lutheryn Labs era uma produtora musical moderna. Do lado de dentro, era ainda melhor.

Limpa. Precisa. Silenciosa. Salas acústicas de vidro. Estúdios pequenos com luz controlada. Corredores frios. Telas suspensas. Interfaces de áudio. Servidores escondidos atrás de portas sem placa. Uma beleza tão calculada que fazia tudo parecer seguro. Esse era o primeiro truque da Lutheryn. Nada nela parecia perigoso. A leste, Greyline envelhecia sem pedir desculpas.

Ali, os postes eram amarelos, as fachadas tinham manchas antigas, as calçadas rachavam perto dos bueiros e os bares abriam antes do anoitecer para receber gente que não sabia voltar cedo para casa. A chuva tinha cheiro de café queimado, ferrugem, cigarro molhado e asfalto velho. As janelas embaçavam por dentro. Os prédios rangiam com o vento. As ruas estreitas guardavam conversas interrompidas, promessas mal feitas e músicas tocadas para plateias que fingiam não estar solitárias. Jhon morava em Greyline.

Terceiro andar. Sem elevador. Um apartamento pequeno, organizado demais, voltado para um beco onde a luz chegava sempre cansada.

Entre Ashford e Greyline havia o Mist Quarter, perto do Rio Vel, onde a neblina subia dos canais e se agarrava às igrejas antigas, aos armazéns convertidos e às pontes de ferro. A mais conhecida era a Veldt Bridge. De dia, era só passagem. À noite, parecia julgamento.

Havia lugares em Veldmoor onde as pessoas iam para encontrar alguém. Havia lugares onde iam para esquecer.

A Veldt Bridge era o tipo de lugar onde ninguém sabia direito qual dos dois estava fazendo. A cidade tinha muitas músicas.

Algumas vinham dos bares de Greyline, tocadas por bandas que misturavam distorção, cansaço e esperança barata. Outras escapavam de apartamentos pequenos, de rádios antigos, de fones de ouvido em vagões de metrô. Algumas eram assobiadas por homens que varriam calçadas antes do comércio abrir. Outras eram choradas em quartos fechados, sem testemunha.

Mas, nos últimos anos, quase todas pareciam voltar ao mesmo nome. Lutheryn. Primeiro foi um rumor. Uma banda com capas escuras demais. Uma voz que parecia cantar de dentro de um quarto sem janela.

Um símbolo vermelho que aparecia em jaquetas, cartazes, canecas, paredes e telas. Músicas sobre amor, ausência, memória e cicatrizes. Depois vieram os shows.

Pequenos no começo. Bares úmidos. Palcos baixos. Cabos espalhados no chão. Guitarras refletindo luz fraca. Pessoas em silêncio depois do último refrão, como se bater palmas cedo demais pudesse quebrar alguma coisa. Então vieram as campanhas. Os anúncios no metrô. As playlists. As projeções em prédios.

As capas que pareciam capítulos de uma história que ninguém tinha lido inteira. As pessoas diziam que era só rock. Só estética. Só uma boa produtora entendendo o próprio público.

Mas havia algo estranho no modo como as músicas da Lutheryn pareciam saber onde doía. Não de maneira genérica, como canções tristes sempre sabem. Era mais preciso. Mais íntimo. Como se alguém tivesse encostado o ouvido na parte mais escondida da cidade e transformado aquilo em refrão. Ninguém perguntava muito.

Em Veldmoor, as pessoas aprendiam cedo que algumas portas só continuavam fechadas enquanto ninguém encostava a mão na maçaneta. Jhon ainda não sabia disso. Naquela manhã, ele acordou três minutos antes do despertador. Não dois. Não quatro. Três.

O celular ainda estava escuro sobre a mesa de cabeceira quando ele abriu os olhos, deitado de lado, imóvel sob o lençol cinza. Do lado de fora, Greyline respirava chuva contra a janela. A mesma chuva. A mesma cidade. O mesmo quarto.

Por um instante, antes de se mover, Jhon teve a sensação de que o mundo já estava em funcionamento havia horas, esperando apenas que ele abrisse os olhos para ocupar seu lugar dentro dele. Então o celular vibrou. 06:17. Jhon desligou o alarme antes que ele tocasse.

E o dia começou como todos os outros dias começam quando ainda fingem ser comuns.

O quarto era pequeno, quase estreito, mas não chegava a parecer pobre. Parecia contido. Uma cama baixa, um armário escuro, dois pares de botas alinhados junto à parede, uma cadeira com uma jaqueta preta dobrada no encosto. Na mesa de cabeceira havia um copo vazio, um relógio analógico e um livro fechado com o marcador parado sempre na mesma página. Jhon não se lembrava de quando havia comprado o livro. Às vezes, isso acontecia.

Um objeto estava ali, perfeitamente integrado à vida dele, mas sem origem. O livro. Uma caneca lascada. Uma cicatriz pequena no dedo indicador da mão direita. O cheiro de café forte pela manhã. Coisas que existiam sem história, como se a vida tivesse começado no meio de uma frase e ele tivesse aceitado continuar lendo. Ele não pensava muito nisso.

Pensar demais em coisas sem resposta era uma maneira pouco eficiente de começar o dia.

Sentou-se na beira da cama, respirou fundo uma vez e passou a mão pelo rosto. O movimento era sempre o mesmo. A ordem também. Levantar. Abrir a cortina. Conferir o clima, embora a resposta fosse quase sempre chuva. Banho. Café. Roupa escura. Chaves. Notebook. Porta.

Na janela, Greyline aparecia recortada por fios, telhados úmidos e fachadas antigas. Lá embaixo, alguém puxava a porta metálica de uma mercearia. O som ecoou pelo beco como uma lâmina arrastada no chão. Jhon ficou alguns segundos olhando. Não havia nada de especial naquela manhã.

E, mesmo assim, por um instante, sentiu a impressão de que já havia vivido aquela cena antes. A chuva. A mercearia. O som metálico. A janela fria sob os dedos. A sensação passou. Ele fechou a cortina.

No espelho do banheiro, o rosto devolvido a ele era o mesmo de sempre: cabelos escuros, barba por fazer, olheiras discretas, olhos de quem dormia o suficiente apenas para continuar funcionando. Não parecia cansado de um dia específico. Parecia cansado de uma sequência muito longa de dias parecidos.

Escovou os dentes. Tomou banho. Vestiu uma camiseta preta, calça escura, botas. Na cozinha, preparou café sem pensar. Não precisava medir a água. Não precisava olhar o pó. Não precisava contar os segundos. O corpo sabia antes da cabeça. Enquanto o café passava, abriu o notebook sobre a mesa. Havia três notificações da Lutheryn Labs.

Duas eram relatórios de campanhas antigas. A terceira tinha o selo vermelho da empresa no canto superior: uma marca vertical, irregular, como uma cicatriz estilizada. O símbolo aparecia em tudo: telas, contratos, capas, crachás, cases de equipamento, paredes de estúdio, jaquetas de palco. Para o público, era identidade visual. Para a empresa, assinatura. Para Jhon, até aquele momento, era apenas parte do ambiente. Ele não abriu a notificação. Ainda não.

Bebeu o café em silêncio, lavou a xícara imediatamente depois, secou com um pano dobrado em quatro e guardou no mesmo lugar. Antes de sair, conferiu se as luzes estavam apagadas, se a janela estava travada e se o notebook estava na mochila. A guitarra ficou no canto da sala, dentro do case. Naquela manhã, ele não precisava dela. Pelo menos não ainda.

O corredor do prédio cheirava a umidade antiga. A lâmpada do terceiro andar piscava de tempos em tempos, não o bastante para apagar, apenas o suficiente para lembrar que um dia apagaria. Jhon desceu as escadas sem pressa. No segundo andar, ouviu uma televisão ligada atrás de uma porta. No primeiro, o choro breve de uma criança. No térreo, o rangido da entrada principal quando empurrou a porta para a rua.

Greyline o recebeu com chuva fina e um ar frio que parecia atravessar o tecido da roupa. Ele ergueu a gola do casaco e caminhou até a estação.

Nas calçadas, a manhã ainda se montava. Padeiros empilhavam caixas, entregadores prendiam capas plásticas nas mochilas, um homem de terno barato fumava debaixo de uma marquise como se o cigarro fosse a única coisa mantendo-o acordado. A cidade, naquele horário, parecia menos viva do que acionada. Luzes acendiam. Portas abriam. Motores tossiam. Pessoas assumiam seus lugares. Jhon gostava daquele horário. Não por beleza. Por precisão.

Tudo em Greyline antes das sete parecia obedecer a uma coreografia sem música. Ele entendia isso. Havia conforto em movimentos repetidos. Em saber onde pisar para evitar a poça perto da banca de jornal. Em desviar do gotejamento constante da marquise vermelha. Em passar pelo café da esquina no exato momento em que a primeira bandeja de pães saía do forno. No metrô, ficou em pé.

O trajeto de Greyline até Ashford levava vinte e oito minutos quando a chuva não travava o trânsito. Trinta e cinco quando travava. Quarenta e dois em dias de acidente na Calloway Avenue. Naquele dia, levou trinta e um.

Ao redor, pessoas olhavam para telas. Algumas ouviam música. Outras encaravam o próprio reflexo no vidro escuro, como se a manhã ainda não tivesse dado permissão para existirem por completo.

Em uma das telas suspensas do vagão, um anúncio da Lutheryn apareceu entre propagandas de banco e aplicativos de entrega. LUTHERYN — novo ciclo em breve.

A frase veio acompanhada de uma imagem da banda em silhueta. Luz baixa. Chuva ao fundo. O símbolo vermelho cortando a lateral como uma ferida limpa demais. O nome Lutheryn em letras grandes, desgastadas, industriais. Jhon desviou o olhar antes do anúncio terminar. Não por vergonha. Não por orgulho.

Só porque era estranho ver o próprio rosto transformado em campanha.

Na foto, ele parecia mais intenso do que se sentia. A câmera sempre fazia isso. Extraía dele uma versão mais nítida, mais triste, mais pronta para ser interpretada. O público gostava daquela imagem: o vocalista quieto, a guitarra baixa contra o corpo, o olhar voltado para algum ponto que ninguém conseguia alcançar. Jhon nunca sabia o que fazer com essa leitura. Para ele, música era trabalho. Não apenas trabalho, mas trabalho também.

Ele gostava de tocar. Gostava do instante em que a guitarra vibrava contra o peito e a voz encontrava um lugar exato dentro do som. Gostava de ensaiar até o erro desaparecer. Gostava do modo como uma música deixava de ser arquivo e virava corpo. Mas havia uma parte de tudo aquilo que continuava sendo função. Receber. Estudar. Executar. Ajustar. Repetir. A Lutheryn vivia entre essas duas coisas. Arte e procedimento. Canção e relatório. Palco e planilha.

Quando saiu do metrô em Ashford, a cidade parecia ter mudado de material. Greyline era tijolo, ferrugem e cheiro de café antigo. Ashford era vidro, aço e reflexo. As torres corporativas subiam limpas contra o céu sem cor, e as calçadas pareciam lavadas de qualquer vestígio humano. Até a chuva ali caía com mais educação.

O prédio da Lutheryn Labs ficava na Rua Calloway, entre uma consultoria financeira e uma empresa de biotecnologia que vendia juventude em anúncios minimalistas. Não havia nome grande na fachada. Apenas o símbolo vermelho, discreto, ao lado da porta giratória. Jhon encostou o crachá no leitor. A luz piscou verde. O elevador subiu até o décimo segundo andar sem parar.

As portas se abriram para um corredor silencioso, iluminado por faixas de LED embutidas no teto. O ar-condicionado estava frio demais, como sempre. À esquerda, uma parede de vidro mostrava a área de produção musical: ilhas de trabalho, monitores, fones, teclados, interfaces de áudio, pequenos estúdios fechados por portas acústicas. À direita, salas de reunião com nomes de músicas antigas e campanhas já encerradas. A Lutheryn Labs não parecia um lugar sombrio. Esse era parte do problema.

Parecia eficiente. Bonita. Precisa. Um desses lugares onde cada cadeira, cada tela e cada silêncio pareciam ter sido escolhidos por alguém com bom gosto e pouco apego ao acaso.

— Você chegou cedo — disse Ravi, sem levantar os olhos do monitor. Jhon passou pela mesa dele. — Chego no mesmo horário. — Exatamente. Isso é cedo de um jeito filosófico.

Ravi trabalhava com uma mistura de áudio, modelo generativo e improviso. Tinha fones enormes apoiados no pescoço, cabelo bagunçado e uma capacidade irritante de parecer relaxado mesmo diante de prazos impossíveis. Na tela à sua frente, várias trilhas de áudio se empilhavam em ondas coloridas. — Dormiu? — Ravi perguntou. — Sim. — Isso foi uma resposta ou uma tentativa? Jhon parou junto à própria mesa. — As duas coisas podem ser verdade. Ravi sorriu. — Olha só. Quase poesia antes das nove.

Do outro lado da ilha, Clara analisava um painel de métricas com uma concentração que fazia o mundo ao redor parecer vulgar. Ela usava o cabelo preso, camisa escura e um colar fino quase sempre escondido sob a gola. Tinha o tipo de atenção que não se limitava à tela. Mesmo quando parecia olhar para números, Jhon às vezes tinha a impressão de que Clara percebia o que acontecia no espaço entre as pessoas. — Hartman pediu você às dez — ela disse. Jhon ligou o computador. — Algum motivo? — Projeto novo. — Campanha? — Álbum. Ravi finalmente tirou os olhos da tela.

— O primeiro ciclo completo da temporada. Público pequeno, bar pequeno, coleta pequena, impacto esperado grande. Essas contradições que pagam nossos salários. Clara olhou para ele. — Você fala demais quando está cansado. — Eu falo demais quando estou acordado. Cansado é só um tempero.

Jhon não respondeu. Abriu os relatórios pendentes, revisou duas análises de resposta emocional e marcou pequenas inconsistências em um painel de retenção auditiva. A Lutheryn Labs chamava aquilo de leitura de engajamento sensível. Em outras empresas, talvez chamassem apenas de dados.

A diferença era que, na Lutheryn, os dados pareciam sempre mais íntimos do que deveriam.

Não bastava saber se alguém ouviu uma música até o final. Era preciso saber onde a pessoa repetiu, onde pausou, onde respirou diferente, em que verso salvou a faixa, depois de qual refrão procurou a letra, que trecho foi compartilhado com alguém às duas da manhã. A empresa vendia a ideia de entender o público.

Às vezes, Jhon achava que o público talvez não quisesse ser entendido com tanta precisão. Mas esse pensamento vinha e ia depressa. Não deixava raiz. Havia trabalho a fazer. Às dez em ponto, ele bateu na porta da sala de Hartman. — Entre.

Hartman não precisava elevar a voz. A sala parecia obedecer antes mesmo dele falar.

Ele estava de pé junto à janela, olhando para Ashford através do vidro que não abria. Terno escuro, camisa clara, mãos para trás. Devia ter pouco mais de cinquenta anos, mas carregava a idade como algo negociável. Não era exatamente bonito, nem exatamente frio. Era polido. E havia na polidez dele uma espécie de distância que fazia as pessoas medirem as palavras antes de entregá-las.

Sobre a mesa, um tablet exibia a capa provisória do novo projeto. Preto. Cinza. Vermelho. O símbolo vertical à esquerda. Um título em letras grandes: Before I Was Real Jhon leu em silêncio. O nome ficou nele por um segundo a mais do que deveria. Antes de eu ser real.

Não era o tipo de título que se explicava logo. Parecia simples, mas havia algo desconfortável na frase. Como se ela soubesse mais do que dizia.

— Primeira faixa — disse Hartman. — Primeiro ponto de entrada emocional do ciclo. — Já está fechada?

— Quase. Estrutura, melodia, letra e arranjo-base. Ainda precisamos da sua interpretação. Jhon olhou para o tablet. — Pra quando? — Pré-teste amanhã à noite. — The Hollow Note?

Hartman virou-se para ele com uma expressão que poderia ser aprovação ou apenas confirmação. — Sim.

The Hollow Note ficava em Greyline, perto do canal, entre uma loja de discos usados e uma lavanderia que nunca parecia aberta. Era pequeno, escuro, úmido, familiar. A Lutheryn tocava lá com frequência suficiente para que o palco já tivesse memorizado o peso dos cabos. — A banda já recebeu? — Jhon perguntou. — Receberá até o fim do dia. Você recebe agora.

Hartman tocou na tela. O tablet enviou o pacote para o terminal de Jhon.

— Demo, guia vocal, cifra, stems principais, notas de intenção e marcações de dinâmica. Quero sua leitura antes do ensaio. — Alguma orientação específica? Hartman demorou meio segundo a mais do que o necessário. — Não trate como uma confissão. Jhon ergueu os olhos. — Não?

— Ainda não. — Hartman voltou o olhar para o tablet. — A música fala de alguém que começa a existir quando é visto por outra pessoa. Mas se você cantar como se já entendesse isso, perde força. Precisa soar como descoberta, não como conclusão. Jhon guardou a frase. Era boa. Boa demais para uma orientação técnica. — Entendi. — Você costuma entender rápido. Não foi dito como elogio. Também não foi dito como crítica. Hartman voltou para a janela.

— O público inicial será reduzido. Queremos reação orgânica. Sem anúncio prévio. Sem expectativa fabricada. Jhon quase sorriu. — Existe reação orgânica na Lutheryn? Hartman olhou para ele. Por um instante, a sala pareceu perder um grau de temperatura. Então Hartman sorriu de leve. — Existe o bastante para trabalharmos com ela. Jhon assentiu. — Mais alguma coisa? — Sim. Não antecipe emoção. Deixe a música encontrar você. A frase ficou suspensa entre os dois.

Jhon não soube por quê, mas sentiu um desconforto pequeno, quase físico, como uma nota fora do tom tocada muito baixo. — Certo — disse. Hartman voltou ao tablet. — Pode ir.

Jhon saiu da sala com o arquivo novo no terminal e a sensação discreta de ter esquecido alguma coisa que nunca soube. O corredor da Lutheryn Labs parecia mais frio depois de Hartman.

Não de maneira real. O ar-condicionado continuava no mesmo ponto, os LEDs continuavam brancos, as salas de vidro continuavam ocupadas por pessoas que falavam baixo demais para parecerem vivas. Mas havia certos lugares em que uma conversa permanecia depois de terminar. A sala de Hartman era um deles. Jhon atravessou o corredor devagar.

Do outro lado do vidro, um produtor ajustava camadas de sintetizadores em uma música que ainda não tinha voz. Em uma sala menor, dois analistas observavam gráficos de resposta emocional subirem e caírem em tempo real enquanto uma faixa instrumental tocava em volume quase inaudível. Mais adiante, uma tela exibia comentários públicos de campanhas antigas, classificados por intensidade, palavra-chave, horário e provável estado afetivo. A Lutheryn Labs não parecia ouvir música. Parecia dissecar o que sobrava dela nas pessoas. Jhon voltou à própria mesa. Ravi girou a cadeira antes mesmo de ele se sentar. — E então? — perguntou. — O oráculo falou? — Projeto novo. — O oráculo sempre fala projeto novo. Isso não conta.

Jhon abriu o terminal e viu o pacote recebido piscando no canto da tela. BIWR_v1.1. A sigla parecia limpa demais para uma música chamada Before I Was Real. — Primeira faixa do ciclo — disse. Clara ergueu os olhos do painel. — Já liberaram para você? — Sim. Ravi assobiou baixo.

— Isso significa que o resto de nós vai receber a versão com menos mistério e mais prazo impossível. — Pré-teste amanhã — Jhon disse. — The Hollow Note? Jhon assentiu.

Ravi sorriu, mas era um sorriso de quem já estava organizando trabalho dentro da cabeça.

— Claro. Bar úmido, palco pequeno, retorno duvidoso, público perto o bastante para ver a alma saindo pela boca. Excelente laboratório. Clara olhou para ele. — Você fala “laboratório” como se estivesse brincando. — Eu quase sempre estou brincando. — Quase. Por um instante, nenhum dos dois disse nada. Jhon percebeu.

Não era tensão exatamente. Era uma daquelas pausas pequenas que surgiam às vezes na Lutheryn, quando alguém dizia uma palavra comum e ela parecia tocar em alguma coisa que ninguém queria nomear. Laboratório. Teste. Ciclo. Resposta. Aderência. Vínculo. Palavras de empresa. Palavras limpas.

Palavras que deixavam menos sujeira quando encostavam em coisas humanas. Jhon sentou-se. — Algum problema com a faixa? Clara fechou uma janela do computador antes de responder. — Não. Só achei o título forte. — Forte como bom ou forte como perigoso? — Ravi perguntou. — Forte como eficiente. Ravi fez uma careta. — Essa palavra de novo.

Jhon abriu os relatórios pendentes, mas não conseguiu voltar a eles de imediato. Before I Was Real permanecia no canto da tela, esperando. — Você ouviu? — ele perguntou a Clara. — Um trecho. — E? Ela escolheu as palavras com cuidado. — Parece simples. Mas não é. Ravi apoiou os cotovelos na mesa. — Isso é praticamente o slogan da Lutheryn. Clara ignorou.

— A letra fala de alguém que tinha nome, rotina, um lugar no mundo, mas não sentia que existia de verdade até ser visto por outra pessoa. Jhon olhou para o arquivo. — Hartman disse algo parecido.

— Hartman sempre diz algo parecido com qualquer coisa que já esteja no relatório — disse Ravi. — É um dom corporativo. Clara não sorriu. — Só toma cuidado para não cantar como se fosse sobre você. Jhon virou o rosto para ela. — Por que eu faria isso?

Clara sustentou o olhar por um segundo. Depois desviou para a tela. — Porque você é bom nisso. A resposta não explicava nada. E talvez por isso tenha ficado. O dia continuou sem pedir licença.

Às onze e meia, Jhon revisou um relatório de retenção de uma campanha antiga. Às doze e quarenta, comeu um sanduíche sem lembrar o gosto. Às treze e quinze, respondeu a uma solicitação sobre métricas de repetição espontânea. Às quatorze, participou de uma reunião curta sobre identidade visual do novo ciclo. A capa provisória apareceu mais uma vez em uma tela grande: preto, cinza, vermelho, o símbolo vertical da Lutheryn à esquerda e o título Before I Was Real ocupando o centro como uma frase que não aceitava ser pequena. Ninguém falou de alma. Ninguém falou de solidão. Ninguém falou de amor. Falaram de impacto. De alcance. De reconhecimento. De coerência visual. De curva emocional.

Jhon fez anotações. Concordou quando precisava. Corrigiu dois termos técnicos. Sugeriu que a entrada da guitarra não fosse limpa demais. Ouviu uma resposta positiva da equipe de produção. Voltou ao silêncio.

Às dezesseis e trinta, a chuva engrossou contra as janelas de Ashford.

Do décimo segundo andar, Veldmoor parecia menos cidade e mais sistema. Ruas como circuitos escuros. Faróis acendendo em sequência. Pessoas atravessando faixas como dados pequenos demais para serem vistos com clareza. O Rio Vel desaparecia sob um lençol de névoa, mas Jhon sabia que ele estava lá, cortando tudo por baixo. Às dezessete e doze, a notificação oficial apareceu no terminal. Projeto liberado: BIWR_v1.1 Faixa: Before I Was Real Função: abertura de ciclo Interpretação primária: Jhon Pré-teste: The Hollow Note / 21h30 / amanhã Pacote local disponível para estudo Abaixo, o símbolo vermelho da Lutheryn. Jhon baixou tudo sem abrir. Ravi esticou o pescoço. — Leva para casa? — Sim.

— Claro que leva. Você é o único cara que transforma dever de casa em ritual religioso. — Ensaiar antes de tocar não é religião. — Depende da culpa envolvida. Clara recolheu os próprios fones e fechou o painel. — Só não mata a música antes dela respirar. Jhon colocou o notebook na mochila. — Isso foi uma orientação técnica? — Foi uma tentativa de ser humana antes das seis. Ravi levou a mão ao peito. — Estamos todos evoluindo.

Jhon vestiu a jaqueta preta. O símbolo da Lutheryn ocupava as costas, grande e vermelho, mas integrado ao tecido como parte da identidade visual da banda. Ele nunca pensava muito sobre aquilo. Era figurino, campanha, assinatura. Uma marca reconhecível o suficiente para aparecer em cartazes e capas. Nada além disso.

Ao sair, passou pelo corredor onde imagens antigas da Lutheryn ocupavam a parede. Shows em bares, ruas molhadas, quartos escuros, silhuetas, janelas embaçadas, objetos deixados sobre mesas. Em todas as imagens, a mesma paleta. Em quase todas, o mesmo símbolo: a cicatriz vertical, ora discreta, ora imensa, sempre parecendo carregar mais peso do que uma marca deveria. Jhon parou diante do espaço reservado para a nova faixa. A capa ainda estava coberta por uma tarja escura. Só o título aparecia. Before I Was Real Antes de eu ser real.

Ele não sabia por que a frase parecia menos romântica do que deveria. Quando chegou a Greyline, a chuva tinha engrossado.

A água batia nos toldos dos comércios e escorria pelas letras apagadas das fachadas. O bairro parecia mais vivo à noite, não porque tivesse mais luz, mas porque aceitava melhor a escuridão. Pessoas fumavam sob marquises. Um casal discutia baixo na porta de um mercado. Um cachorro molhado atravessou a rua sem pressa, como se conhecesse todos os semáforos pelo nome.

Jhon comprou pão em uma padaria pequena, embora soubesse que provavelmente esqueceria de comer. O atendente o reconheceu, mas não disse nada além do preço. Greyline tinha essa gentileza: deixava certas pessoas existirem sem exigir explicações.

No caminho até o prédio, passou por uma parede coberta de cartazes sobrepostos. Bandas locais, peças independentes, aulas de violão, um anúncio de apartamento, um desaparecimento antigo já desbotado pela água. Sobre tudo aquilo, alguém havia colado um pôster novo da Lutheryn.

A imagem mostrava apenas uma janela escura, chuva no vidro e o símbolo vermelho no canto inferior. Nenhum rosto. Nenhuma data. Só uma frase: novo ciclo em breve. Jhon não parou. Mas sentiu o cartaz acompanhá-lo por alguns passos.

No apartamento, tirou as botas junto à porta, pendurou a jaqueta no encosto da cadeira e colocou o notebook sobre a mesa. A guitarra continuava no canto da sala, dentro do case. Agora, sim, ele precisava dela. Antes, fez café. Não porque quisesse. Porque sempre fazia.

A chuva batia na janela com mais força do que de manhã. A sala estava iluminada apenas pela luminária de mesa e pela tela do notebook. O resto do apartamento permanecia na penumbra: cozinha estreita, corredor curto, porta do banheiro, quarto entreaberto. Tudo no lugar. Tudo silencioso demais para parecer acolhedor. Jhon abriu o pacote da música. Havia uma pasta organizada demais. 01_DEMO_FULL 02_GUIA_VOCAL 03_CIFRA_GUITARRA 04_LETRA 05_STEMS 06_NOTAS_DE_INTENCAO 07_RELATORIO_PRE_TESTE Ele começou pela demo completa. Sempre começava pela demo completa.

Colocou os fones, sentou-se, apoiou os cotovelos na mesa e apertou play. A primeira audição era limpa. Sem tocar por cima. Sem cantar. Sem interromper.

A música entrou com guitarra e espaço. Não era delicada, mas também não tentava vencer pela força. Havia tensão desde o início, um riff contido, uma bateria que segurava o pulso sem pressa e um baixo que parecia manter tudo preso ao chão. A voz guia era correta, quase impessoal, como todas as vozes guia costumavam ser. Jhon fechou os olhos. Contou a entrada. Oito compassos. Respiração. Primeira linha vocal. Pausa curta antes da resposta instrumental. Pré-refrão subindo sem entregar tudo. Refrão aberto.

A música falava de alguém acordando no mesmo quarto, com a chuva contra o vidro, carregando um nome, um lugar e uma maneira de desaparecer. Falava de uma pessoa que não conhecia o próprio rosto até ser vista por alguém. Jhon abriu os olhos e puxou o caderno. Escreveu: Verso contido. Não dramatizar. Guitarra com tensão, não excesso. Refrão: descoberta. Não confissão. Parou. A caneta ficou imóvel entre os dedos. Descoberta. Não confissão.

A frase parecia certa. Mas havia algo nela que o incomodava. Como se a música estivesse pedindo uma emoção que ele ainda não tinha vivido e, mesmo assim, já soubesse onde guardar. Ele voltou ao início da faixa. Ouviu de novo.

No refrão, a letra falava de existir antes de ser real. De ser sombra antes de sentir. De alguém tocar a escuridão dentro de outra pessoa e fazê-la sangrar. Jhon tirou os fones. A chuva ocupou o lugar da música. Por alguns segundos, a sala pareceu pequena demais.

Ele olhou para a janela. Seu reflexo aparecia escuro no vidro, misturado aos fios do beco e às luzes distantes. Um homem sentado sozinho, uma mesa, um notebook, uma música sobre alguém que só se tornava real ao ser visto. Não havia motivo para desconforto. Era uma boa música. Talvez fosse só isso. Jhon abriu o case da guitarra.

O cheiro de madeira, metal e tecido antigo subiu discreto. Ele conectou o cabo à interface, ajustou o volume baixo, colocou os fones de novo e abriu a cifra. A primeira passagem veio fácil. Fácil demais.

A mão esquerda encontrou o desenho do riff quase sem esforço. O movimento não parecia tentativa. Parecia correção. Como se os dedos estivessem voltando a um lugar onde já tinham estado. Ele parou no segundo compasso. Voltou ao começo. Tocou uma vez acompanhando a guia. Depois outra.

Na terceira, já sabia onde abafar as cordas para deixar o verso mais seco. Na quarta, ajustou a dinâmica antes do pré-refrão. Na quinta, dobrou uma nota na entrada do refrão sem perceber. Na sexta, cantou baixo junto com a guitarra. Na sétima, não precisava mais olhar para a cifra. Jhon parou. Olhou para o relógio do notebook. Dezenove minutos.

Ainda faltavam detalhes. Sempre faltavam. Timbre, respiração, intenção, pequenas sujeiras que só apareciam no ensaio. Mas a estrutura já estava nele. Inteira.

A música havia atravessado o espaço entre arquivo e corpo rápido demais. Jhon tirou os fones devagar. — Certo — disse para ninguém. Sua voz pareceu estranha na sala.

Levantou, foi até a cozinha, bebeu água, voltou. O caderno continuava aberto. A guitarra repousava sobre a cadeira, o cabo ainda conectado, o notebook com a forma de onda parada no refrão. Ele tentou racionalizar. Era uma progressão simples. O arranjo era direto. Ele tinha experiência. Ele conhecia a linguagem da Lutheryn.

A banda ensaiava com frequência. Ele estava acostumado a receber músicas, desmontá-las, remontá-las, levar ideias prontas para o palco. Não havia mistério nisso. Apenas método. Mesmo assim, alguma coisa permanecia fora do lugar. Jhon abriu as notas de intenção. O documento era curto. A faixa deve soar como o início de uma existência afetiva. Não interpretar como declaração pronta. Há intimidade, mas também estranhamento. Voz contida nos versos. Refrão com abertura emocional. Não cantar como confissão. Cantar como descoberta. Jhon ficou imóvel. A frase no caderno parecia olhar de volta para ele. Refrão: descoberta. Não confissão. Ele respirou fundo.

Podia ter lido antes sem perceber. Talvez as palavras tivessem aparecido na prévia do arquivo, ou Clara tivesse comentado algo parecido, ou Hartman, na sala, tivesse dito uma variação daquela ideia. O cérebro fazia isso. Misturava fontes. Fabricava originalidade com material alheio. Jhon fechou o documento. Não havia motivo para transformar coincidência em pergunta. Pegou a guitarra outra vez. Dessa vez, cantou.

Baixo no primeiro verso. Quase sem abrir a boca. Deixou a voz tocar a melodia como quem testa a temperatura de uma água escura. A letra, na cabeça dele, deixava de ser inglês e virava intenção: um quarto repetido, chuva contra o vidro, um nome sem história, alguém sendo encontrado onde nem sabia estar perdido. No refrão, a voz saiu mais cheia. Não alta. Não exagerada. Apenas mais inteira.

A guitarra vibrou contra o corpo dele. A bateria da demo marcou o pulso. O baixo segurou o chão. Por um instante, o apartamento desapareceu um pouco. Ou talvez tenha ficado mais presente do que nunca: a janela, a chuva, a luminária, o cheiro de café, a solidão exata da sala. Quando terminou, Jhon não se moveu. A última nota morreu nos fones. Então ele ouviu algo. Não na música. Na sala.

Um som pequeno, quase nada. Como o estalo de madeira antiga. Ou uma respiração que não era dele. Jhon tirou os fones imediatamente. Silêncio. Só chuva. Olhou para o corredor. Para a porta do banheiro. Para a cozinha. Nada. O apartamento estava vazio. Claro que estava vazio.

Ele passou a mão pelo rosto, cansado de repente. Talvez tivesse dormido menos do que pensava. Talvez Ravi tivesse razão. Talvez responder “sim” à pergunta “dormiu?” nem sempre bastasse. Voltou à mesa e abriu o relatório pré-teste.

A primeira página trazia dados gerais: local, horário, público estimado, objetivo da faixa, parâmetros de coleta. Tudo normal.

Na segunda, havia uma tabela de perfis de resposta esperada. Jhon passou os olhos sem muito interesse até encontrar uma linha destacada. Interpretação primária — sujeito vocal: JHON Compatibilidade emocional prevista: alta Risco de desvio interpretativo: baixo Observação: monitorar aderência espontânea ao tema Jhon franziu a testa. Monitorar aderência espontânea.

Era uma expressão estranha, mas não absurda. A Lutheryn adorava expressões estranhas. Todo departamento tinha seu dialeto. O marketing falava de comunidade como se fosse clima. O time de dados falava de saudade como se fosse curva. A produção falava de emoção como se fosse frequência. Ainda assim, aquela linha ficou nele. Monitorar aderência espontânea ao tema. Como se a música estivesse esperando alguma coisa dele. Jhon fechou o relatório. Abriu uma nova página no caderno e escreveu: Amanhã — The Hollow Note. Chegar 19h. Passagem 20h15. Pré-teste 21h30. Não antecipar emoção. Parou de novo. A última frase não era dele. Era de Hartman. Riscou. Escreveu embaixo: Deixar a música respirar. Essa talvez fosse dele. Talvez fosse de Clara. Talvez não fizesse diferença. O celular vibrou sobre a mesa. Mensagem de Ravi no grupo da banda: recebemos a faixa. amanhã a gente quebra isso bonito. Outra mensagem, de alguém da bateria: 21h30? alguém avisa a chuva

Depois, um emoji de guarda-chuva, outro de caveira, uma piada que Jhon leu sem responder.

Ele não precisava responder sempre. A banda funcionava assim. Uma convivência feita de ensaio, palco, comentários rápidos, amizade suficiente para dividir silêncio e cabos, mas não necessariamente para entrar na parte mais fechada da vida uns dos outros. Jhon digitou apenas: Chego 19h. Enviou. A resposta de Ravi veio em segundos: claro que chega Jhon deixou o celular virado para baixo. Tocou a música mais uma vez. Depois outra.

Quando percebeu, o café na xícara estava frio e a chuva tinha diminuído. O relógio marcava 23:08. A guitarra já não parecia um instrumento que ele segurava, mas uma extensão temporária do próprio corpo. A melodia estava memorizada. As entradas também. Os pontos de respiração. As pausas. O lugar exato onde o refrão precisava abrir sem parecer que implorava.

Ele gravou uma guia simples para si mesmo, ouviu de volta e anotou três ajustes. Menos ar no primeiro verso. Segurar consoantes no refrão. Não deixar bonito demais. Essa última anotação o fez parar. Não deixar bonito demais. Por algum motivo, fazia sentido. A música não queria beleza limpa. Queria uma rachadura. Jhon fechou o caderno.

Desconectou a guitarra, guardou no case e apagou a luminária. A sala mergulhou em uma penumbra azulada, iluminada apenas pelas luzes do beco atravessando a janela molhada. Antes de ir para o quarto, parou diante do vidro. Seu reflexo estava ali outra vez.

Atrás dele, a jaqueta preta permanecia no encosto da cadeira, com o símbolo vermelho parcialmente visível no tecido dobrado. Naquele ângulo, a marca parecia uma linha aberta no escuro. Jhon olhou por tempo demais. Não sentiu nada específico. Ou sentiu e não soube nomear. Essa era uma diferença que ele ainda não havia aprendido.

No notebook, uma notificação apareceu antes que a tela entrasse em repouso. Lutheryn Labs — sincronização concluída. Pacote BIWR_v1.1 atualizado. Dados locais enviados. Jhon viu a mensagem refletida no vidro. Virou-se. A tela apagou.

Por alguns segundos, ficou parado na sala escura, ouvindo a chuva quase terminar. Depois foi dormir. Na manhã seguinte, haveria trabalho. À noite, haveria música.

E, em algum lugar de Veldmoor, alguém que ele ainda não conhecia ouviria aquela canção como se ela tivesse sido escrita para encontrar exatamente aquilo que ainda não sabia procurar.