Capítulo 11
Echoes in the Mist

A névoa sempre foi pior que a chuva. A chuva, ao menos, tinha direção.
Caía. Escorria. Batia contra vidros, telhados, guarda-chuvas, ombros. Podia ser medida em intensidade, evitada sob marquises, ouvida como ruído constante nas janelas de Veldmoor. A névoa não. A névoa não caía. Ela cercava.
Subia do Rio Vel em camadas baixas, atravessava grades, escadas, pontes e becos, entrava nas roupas sem pedir licença. Não fazia som. Não anunciava chegada. Apenas aparecia entre uma respiração e outra, apagando contornos, aproximando coisas distantes e afastando aquilo que estava a poucos passos.
Depois da noite em que quebrou o padrão de Hollow Orbit, Jhon começou a procurar ecos. Não respostas. Ainda não.
Respostas pareciam grandes demais. Exigiam ordem, coragem, algum tipo de fé na possibilidade de entender. Jhon não tinha nada disso. Tinha páginas arrancadas de um arquivo morto, uma caneca sobre a mesa, uma guitarra com gravações instáveis, um nome que talvez não fosse nome inteiro e uma sigla que ainda parecia escrita por dentro dos ossos. L-07. Mas ecos eram menores. Ecos não prometiam origem. Só devolviam pedaços. Por isso ele começou por eles. O primeiro eco veio de uma igreja antiga no Mist Quarter. Não foi planejado.
Jhon havia saído de casa antes do amanhecer, depois de outra noite mal dormida. Clara e Ravi tinham ido embora perto das três, levando cópias fotografadas das páginas e a promessa pouco convincente de não fazer nada imprudente antes de conversar. Jhon dissera que sim. Todos sabiam que aquilo não significava muito.
A cidade estava coberta por uma névoa espessa quando ele chegou perto do Rio Vel. Os postes pareciam acesos dentro de copos de leite sujo. As fachadas dos armazéns surgiam e desapareciam conforme ele caminhava. O som dos próprios passos vinha abafado, como se a rua tivesse colocado algodão nos ouvidos. No Mist Quarter, as construções eram mais velhas.
Veldmoor parecia ter começado ali e depois tentado se afastar da própria origem sem conseguir. Igrejas de pedra escura, portões enferrujados, vitrines de antiquários, cafés sem placa, pequenos becos que terminavam em canais. Tudo carregava a impressão de ter visto mais do que dizia.
A igreja de Saint Oran ficava entre uma loja de velas e um prédio abandonado onde alguém havia pintado a scar mark em vermelho na parede lateral. Jhon parou diante dela. Não por fé. Não sabia se tinha alguma. Parou porque ouviu música.
Uma melodia baixa, quase soterrada pela névoa. Não vinha de alto-falante. Não parecia gravação. Era uma sequência simples de notas, repetida com hesitação, como se alguém testasse um instrumento antigo dentro da igreja. A porta estava entreaberta. Jhon entrou.
O ar lá dentro era frio e seco de um jeito que parecia impossível em Veldmoor. Bancos de madeira escura alinhavam-se até o altar. Algumas velas tremiam perto de imagens gastas. O vitral central estava quebrado em dois pontos, coberto por placas transparentes que deixavam a luz entrar sem cor. Não havia ninguém nos bancos. A música parou. — Olá? — Jhon disse. A voz voltou para ele em eco. Olá. Olá. Olá. Por um instante, achou que o eco havia dito outra coisa. L-07. Virou o rosto. Nada.
No altar lateral, havia um piano velho coberto por um pano escuro. Uma das teclas estava abaixada, presa. Jhon se aproximou. Tocou outra tecla. O som saiu desafinado, mas vivo. A sequência que ouvira não se repetiu. Então viu.
Entre as velas, preso por uma fita vermelha ao suporte metálico, havia um papel dobrado. Não era antigo. A borda ainda estava limpa, apesar da umidade. Jhon puxou. Dentro, apenas uma frase: Nem todo eco vem depois do som. Sem assinatura. A letra não era de Sara. Ele teria reconhecido. Também não era de Hartman.
Era mais redonda, mais apressada, como escrita por alguém que não queria permanecer ali. Jhon dobrou o papel de novo. Guardou no bolso. Quando se virou para sair, viu Sara no último banco. Sentada. Casaco escuro. Cabelo úmido. Mãos sobre o colo. A scar mark no antebraço esquerdo. Jhon não respirou. Ela olhava para o altar, não para ele. — Sara. A figura virou o rosto devagar.
Os olhos dela pareciam tristes demais para serem memória simples. — Você não devia procurar aqui — ela disse. A voz veio baixa. Não como som inteiro. Como lembrança atravessando água. Jhon deu um passo. — Então onde? Sara olhou para o vitral quebrado. — Onde começou antes de você. — Eu não sei onde comecei. Ela finalmente olhou para ele. — Eles sabem. A porta da igreja bateu atrás dele. Jhon virou por reflexo. Quando olhou de volta, o banco estava vazio. Só a névoa entrando pela fresta. Só o piano velho. Só a tecla presa sustentando uma nota quase morta. Ravi não gostou do papel.
— Bilhete misterioso em igreja abandonada nunca é bom sinal — disse, sentado à mesa do apartamento de Jhon. — Isso é tipo regra básica de sobrevivência.
Clara segurava o papel com luvas finas que tirara de algum lugar. — Saint Oran não é abandonada. — Pior. Igreja semi-funcional. Mais assustador. Jhon estava de pé perto da janela. — Reconhece a letra? Clara balançou a cabeça. — Não. Mas o papel é da Lutheryn. Ravi parou. — Como assim?
Clara virou a folha e apontou para a borda inferior. Havia uma marca quase invisível, uma linha d’água impressa no papel, perceptível apenas contra a luz. A scar mark. Muito clara. Quase branca.
— Papel interno — ela disse. — Usado em documentos de arquivo físico antigo. Antes de tudo virar digital. Jhon olhou para o bilhete. — Então alguém da Lutheryn deixou lá. — Ou alguém que teve acesso a arquivos antigos. Ravi cruzou os braços.
— Ótimo. Temos um fantasma, uma corporação emocionalmente criminosa e agora uma caça ao tesouro em papel timbrado. Clara ignorou.
— “Nem todo eco vem depois do som.” Pode ser referência a retroalimentação. Algo que aparece antes da causa. Antecipação emocional. Modelagem preditiva. — Tradução humana? — Ravi pediu. Clara olhou para Jhon.
— Talvez a Lutheryn não esteja apenas transformando emoções em músicas depois que elas acontecem. Jhon sentiu frio. — Está prevendo.
— Ou induzindo caminhos possíveis e medindo qual deles se realiza. Ravi ficou sério. — Isso é pior que prever. — Sim — Clara disse. O apartamento ficou quieto.
A caneca de Sara permanecia entre eles, no centro da mesa. Ninguém mais tratava aquilo como objeto comum. Ravi desviava dela com respeito. Clara jamais a movia. Jhon às vezes achava que ela era a quarta pessoa na conversa. — Hartman disse “onde começou antes de você”? — Clara perguntou. Jhon olhou para ela. — Sara disse. Clara não corrigiu. Esse cuidado significou algo.
— Onde começou antes de você — ela repetiu. — Antes da ativação social plena. — O arquivo morto?
— Talvez. Mas os documentos que vimos eram posteriores ao projeto. Para entender antes, precisamos da origem da linha. Ravi suspirou. — E essa origem, por acaso, fica em outro subsolo sinistro? Clara demorou. — Não. — Ah, que bom. — Fica fora da cidade. Ravi fechou os olhos. — Eu devia ter ficado quieto. Jhon se aproximou da mesa. — Onde?
Clara abriu o tablet. Um mapa de Veldmoor apareceu, com o Rio Vel cortando a cidade. Ela arrastou a imagem para oeste, além dos bairros centrais, além das linhas de metrô, até uma área cinza marcada por construções antigas perto de um reservatório desativado.
— Antigo Centro Acústico de Veldmoor. Oficialmente fechado há doze anos. Antes da Lutheryn Labs existir em Ashford, alguns experimentos de áudio adaptativo foram registrados lá por uma fundação chamada Orpheus Vale. Jhon olhou para o nome. Orpheus. Como a sala. — Hartman? — Ele era consultor da fundação. Ravi bateu a mão na mesa.
— Claro que era. Esse homem não consegue ser normal nem no passado. Clara ampliou o mapa.
— O lugar fica perto do velho túnel de drenagem do Rio Vel. É uma região abandonada, mas há registros recentes de consumo elétrico baixo. Alguém mantém alguma coisa funcionando. Jhon olhou para o ponto no mapa.
Uma área fora dos caminhos habituais. Fora de Greyline, fora de Ashford, fora do Mist Quarter turístico. Um lugar anterior à Lutheryn elegante. Anterior aos vidros, aos relatórios, às campanhas. Antes dele. — Quando vamos? — perguntou. Clara não respondeu imediatamente. — Não deveria ser hoje. — Mas vai ser — Ravi disse. Jhon olhou para ele. Ravi ergueu as mãos.
— Estou aprendendo a reconhecer o ritmo de decisões ruins inevitáveis. Clara fechou o tablet.
— Se formos, vamos preparados. Sem login pessoal. Sem celulares principais. Sem usar nada da Lutheryn conectado à nossa identidade. E, se algo parecer ativo demais, a gente sai. Jhon assentiu. — Certo. Ravi apontou para ele. — Esse “certo” foi muito rápido. — Eu ouvi. — Não, você respondeu. São coisas diferentes. Jhon quase sorriu. Quase. Clara percebeu. Talvez Ravi também.
Por um instante, havia algo no apartamento que não era só luto, medo ou conspiração. Era uma forma torta de companhia. Então o notebook de Jhon acendeu sozinho. A tela mostrou uma linha única: ECHOES_IN_THE_MIST_v0.1 disponível Nenhum dos três se moveu. Ravi foi o primeiro a falar. — Eu realmente odeio quando o título conversa com o momento. Jhon encarou a tela. Echoes in the Mist. Ecos na névoa. Clara fechou o notebook antes que a faixa abrisse. — Hoje não. Dessa vez, Jhon deixou.
O antigo Centro Acústico de Veldmoor ficava onde a cidade esquecia de parecer cidade.
A oeste, depois dos trilhos de carga e dos galpões vazios, Veldmoor perdia altura. As ruas se alargavam sem se tornarem avenidas. O asfalto rachava em placas irregulares. Postes antigos inclinavam sob fios pesados. Muros cobertos de musgo cercavam terrenos onde máquinas enferrujadas apodreciam sob chuva. A névoa era mais espessa ali.
Não a névoa romântica do Mist Quarter, fotografada por turistas e usada em campanhas. Aquela era baixa, suja, misturada ao cheiro de água parada e metal antigo. Subia dos canais de drenagem e se enrolava nos tornozelos, como se tentasse impedir que qualquer um voltasse pelo mesmo caminho. Clara dirigia um carro alugado. Ravi estava no banco da frente, olhando para todos os lados. — Eu quero registrar formalmente que eu odeio esse plano. — Registrado — Clara disse. — Com ênfase. — Registrado com ênfase.
Jhon estava no banco de trás, observando a cidade se desfazer pela janela.
No bolso interno da jaqueta, levava as páginas dobradas do arquivo L-07. No outro, o bilhete da igreja. No antebraço, sob a manga, a scar mark parecia mais quente do que deveria. Não sabia se era medo. Ou memória. Ou apenas pele sob tecido molhado. O centro apareceu atrás de uma fileira de árvores mortas.
Era um prédio baixo, longo, de concreto escuro, com janelas estreitas e uma fachada sem letreiro. Parte do telhado havia cedido em uma extremidade. O portão principal estava trancado com uma corrente antiga, mas havia marcas de pneus recentes na lama. Clara desligou os faróis antes de parar.
— Energia baixa detectada do lado leste — disse, olhando para um pequeno aparelho. Ravi inclinou-se para ver. — Isso é legal? — O aparelho ou entrar? — Os dois. — Não. — Excelente.
Entraram por uma abertura lateral no muro, coberta por vegetação. O terreno cheirava a ferrugem e folhas encharcadas. A chuva caía fina, mas a névoa fazia tudo parecer molhado por dentro. A porta de serviço do lado leste estava fechada. Não trancada. Isso foi pior. Ravi empurrou devagar. A porta abriu com um rangido baixo. Lá dentro, escuridão.
Clara acendeu uma lanterna pequena, coberta por filtro fraco. O feixe revelou um corredor estreito, paredes manchadas, piso de concreto, cabos antigos correndo pelo teto. Havia placas gastas nas portas. SALA A — RESSONÂNCIA SALA B — CAPTAÇÃO SALA C — ISOLAMENTO Jhon parou diante da última. Isolamento. A palavra parecia segui-lo. — Por aqui — Clara disse.
Seguiram até o fim do corredor, onde uma escada descia. O ar ficava mais frio a cada degrau. Embaixo, ouviram um som baixo. Não máquina. Não exatamente. Um pulso. Como uma nota grave sustentada por muito tempo. Ravi sussurrou: — Se alguém disser “bem-vindos”, eu corro. A escada terminou em uma sala ampla.
No centro, havia equipamentos antigos cobertos por lonas. Cabos grossos. Monitores desligados. Um painel acústico circular no teto, parcialmente quebrado. Nas paredes, marcas de umidade e antigos suportes para microfones. Mas do lado direito, atrás de uma divisória de vidro, havia luz. Fraca. Azulada. Clara desligou a lanterna. Os três se aproximaram.
A sala atrás do vidro parecia limpa demais para o prédio abandonado. Havia um terminal ligado, uma cadeira, uma mesa metálica e armários baixos. Sobre a parede, pintada em vermelho escuro, uma versão antiga da scar mark. Mais agressiva. Menos marca. Mais corte. Jhon tocou o vidro. Um som veio do terminal. A tela acendeu mais forte. IDENTIFICAÇÃO DE PRESENÇA: L-07 Ravi deu um passo para trás. — Não. Clara prendeu a respiração. Jhon ficou imóvel. A tela mudou. RETORNO NÃO PROGRAMADO PROTOCOLO: ORPHEUS VALE / MEMÓRIA DE BASE Uma porta destravou com um clique. A divisória de vidro abriu. Clara segurou o braço de Jhon. — Não entra sozinho. Ele olhou para ela. — Não estou sozinho. A frase saiu antes que ele pensasse. E, por um instante, foi verdade em mais de um sentido. Entraram. O terminal exibia pastas antigas. Não havia senha. Não havia bloqueio. Como se aquele lugar estivesse esperando por ele havia anos. Ou como se o bloqueio fosse exatamente ele. Clara começou a copiar arquivos para um dispositivo isolado. Ravi vasculhou os armários. Jhon ficou diante da tela. Uma pasta chamou seu olhar. BASE_MEMORY / JHON / pre-social Ele abriu. Vídeos. Centenas. Todos curtos. Datas anteriores à ativação social plena. Jhon clicou no primeiro. A imagem mostrou uma sala cinza. Uma cadeira. Um microfone. E ele. Mais jovem?
Não. Igual. Talvez com o cabelo mais curto, o rosto menos expressivo, os olhos abertos de um jeito quase neutro. Sentado diante do microfone, mãos sobre os joelhos. Uma voz fora da câmera disse: — Identificação. Na tela, ele respondeu: — L-07. A voz perguntou: — Nome operacional? Silêncio. Depois: — Aguardando atribuição. Jhon sentiu a sala desaparecer. Ravi parou atrás dele. Clara também. No vídeo, a voz fora da câmera continuou: — Execute sequência vocal de tristeza moderada. L-07 abriu a boca. Cantou.
Não havia letra. Apenas melodia. A voz era perfeita tecnicamente, mas vazia de alguma coisa que só se percebia pela falta. A gravação terminou. Jhon não se moveu. Ravi falou primeiro, baixo: — Jhon… Ele abriu outro vídeo. Mesma sala. Mesma cadeira. Ele, de novo. — Nome operacional? — perguntou a voz. Dessa vez, ele respondeu: — Jhon. Jhon na frente da tela fechou os olhos. No vídeo, a voz perguntou: — Origem familiar? O Jhon da gravação respondeu: — Greyline. Pais ausentes. Histórico não prioritário. Clara levou a mão à boca. Ravi xingou baixo. A voz perguntou: — Primeiro instrumento? — Violão. Aos doze anos. — Memória associada? O Jhon da tela ficou em silêncio por três segundos.
— Chuva na janela. Cordas antigas. Voz feminina no cômodo ao lado. A voz fora da câmera disse: — Aceitável. Inserção mantida. Jhon afastou-se do terminal. Inserção. A palavra o atingiu como golpe físico. Clara tentou fechar o vídeo. Ele segurou a mão dela. — Não. — Você não precisa ver tudo agora. — Preciso. — Não assim. Jhon olhou para ela. — Eu preciso saber o que é meu. Clara não respondeu. Porque talvez não soubesse. Ravi encontrou uma caixa no armário. — Tem mais coisa aqui. Dentro havia objetos. Um livro fechado com marcador em uma página. Uma caneca lascada. Um relógio analógico. Uma foto desfocada de uma rua em Greyline. Um pedaço de tecido escuro.
Um pequeno corte artificial em silicone, usado talvez para simular cicatriz. Jhon reconheceu tudo. Não os objetos exatos. As versões deles. O livro no quarto. A caneca. O relógio. As coisas sem origem. A vida dele havia sido ensaiada ali antes de existir. Jhon pegou o livro da caixa. Abriu na página marcada. Estava em branco. Todas as páginas estavam em branco. A náusea subiu. Ele largou o livro como se fosse algo morto. No terminal, uma pasta começou a piscar. SARA / unauthorized emotional imprint Jhon congelou. — Clara. Ela viu. — Isso não deveria estar aqui. — Abre. — Jhon… — Abre. Clara abriu. Havia apenas um arquivo de áudio. mist_echo_01.wav Duração: 00:42. Jhon apertou play. Ruído.
Névoa não faz som, mas aquele áudio parecia conter algo parecido: ar úmido, distância, chuva abafada, um pulso fraco. Então a voz de Sara. Não perfeita. Não limpa. Mas dela.
— Se você encontrou isso, então eles mentiram mais do que você pensava. Jhon parou de respirar. Ravi sussurrou: — Que porra é essa? A voz continuou.
— Eu não sei quanto de mim vai sobrar nesse arquivo. Não sei se isso é mensagem, eco ou mais uma coisa que eles vão usar contra você. Mas eu lembro de ter vindo aqui. Jhon segurou a borda da mesa. Sara havia vindo ali. Quando? Como?
— Eu segui Hartman uma vez — a voz disse. — Depois de uma reunião sua. Eu sei, foi idiota. Mas havia algo errado no jeito como ele olhava para você. Como se estivesse esperando você acontecer. Eu vim até este lugar. Não entrei muito. Ou achei que não entrei. Depois disso, tive sonhos com salas cinza. Com você sentado numa cadeira. Com alguém perguntando seu nome. Clara olhou para Jhon, horrorizada. A voz de Sara tremeu.
— Talvez eu tenha inventado. Talvez eu tenha ouvido alguma coisa. Talvez eles tenham me visto e feito algo. Eu não sei. Mas, Jhon… você não era vazio. Mesmo ali. Mesmo antes. Eu vi seus olhos naquele vídeo. Você estava preso, não ausente. Jhon fechou os olhos. A sala inteira parecia pulsar.
— Não deixa eles te convencerem que ser feito é o contrário de ser real. Tem gente que nasce de sangue e passa a vida inteira sem sentir nada. Você sente. Você tenta. Você erra. Você fica. Às vezes tarde demais, seu idiota, mas fica. A voz falhou num riso pequeno. O som quebrou Jhon por dentro.
— Eu queria te contar. Não consegui. Depois minha mãe piorou. Depois eu piorei. Depois tudo ficou sem janela. Mas se algum dia você achar isso, me promete uma coisa que você não pode prometer porque eu nem estou aí para cobrar. Pausa. Chuva. — Não vira a música deles. O áudio terminou. Silêncio. Nenhum dos três se moveu. Então o terminal apagou. As luzes azuis ficaram vermelhas. ACESSO REMOTO DETECTADO PROTOCOLO DE LIMPEZA INICIADO Clara acordou primeiro. — Temos que sair. Agora. Ravi puxou Jhon pelo braço. Dessa vez, ele não resistiu.
Mas antes de sair, Jhon arrancou o dispositivo onde Clara copiara os arquivos e pegou a caixa com os objetos. O livro em branco caiu no chão. Ele não pegou. Deixou. A vida falsa podia ficar ali. A mensagem de Sara, não.
Correram pelo corredor enquanto portas começavam a travar atrás deles. A nota grave no prédio aumentou, tornando-se quase dor física. Clara guiava. Ravi mantinha uma mão nas costas de Jhon, empurrando quando necessário. Subiram a escada. A porta de serviço fechou pouco antes de chegarem. Ravi jogou o corpo contra ela. Nada. — Merda! Clara abriu o painel lateral com uma ferramenta pequena. — Me dá dez segundos. — Temos cinco no clima dramático atual! Jhon olhou para trás. No fim do corredor, a névoa parecia entrar pelo prédio. Mas não havia abertura. Dentro dela, por um instante, viu Sara. Parada. Olhando para ele. Não triste. Firme. — Não vira a música deles — ela disse. Ou o áudio disse dentro dele. Ou a memória. Clara destravou a porta. — Vai! Saíram para a chuva. Atrás deles, o prédio ficou escuro. Não explodiu. Não desmoronou. Apenas apagou. Como se nunca tivesse estado vivo. No carro, ninguém falou por quase quinze minutos. Clara dirigia rápido demais para a névoa.
Ravi respirava como quem havia esquecido como fazer isso normalmente. Jhon segurava o dispositivo com o arquivo de Sara. A caixa com os objetos estava no chão, aos pés dele. Não sabia por que a trouxera. Talvez por raiva. Talvez para provar que algumas mentiras tinham peso. Talvez porque objetos falsos ainda haviam moldado uma vida real. No rádio desligado, houve um chiado. Ravi olhou. — Não. O chiado aumentou. Depois veio uma voz. Não Sara. Hartman. — Jhon. Clara tentou desligar o sistema do carro. Nada. — Eu sei que você encontrou o centro — Hartman disse. Jhon fechou os olhos. — Não responda — Clara falou. Hartman continuou, calmo:
— Traga os arquivos. Podemos conversar antes que você interprete tudo pelo pior ângulo possível. Ravi riu sem humor. — Ah, claro. O ângulo injusto do laboratório de gente. — Ravi — Clara advertiu. A voz de Hartman não mudou. — Sara não deveria ter entrado ali. Jhon abriu os olhos. — Para o carro. — Jhon, não — Clara disse. — Para. Ela não parou. Hartman continuou:
— O contato dela com material de base criou efeitos imprevisíveis. Nós tentamos conter. Jhon falou para o rádio: — Conter como? Silêncio. Clara murmurou um palavrão. Hartman respondeu: — Não pelo rádio. — Como? A voz dele saiu fria. Tão fria que Ravi olhou para trás. Hartman demorou. — Algumas memórias expostas foram suprimidas. O mundo ficou estreito de novo. — Vocês mexeram nela.
— Tentamos protegê-la de informação que ela não tinha estrutura para processar. Jhon segurou o dispositivo com tanta força que os dedos doeram. — Ela já estava doente. — Sim. — E vocês entraram na cabeça dela. — Não simplifique. Jhon riu. Baixo. Sem humanidade suficiente para parecer riso. — Não simplifique? Clara acelerou. Hartman disse:
— Volte, Jhon. A raiva agora vai te dar uma sensação falsa de identidade. Isso passa. Jhon olhou para a chuva no para-brisa. — Ótimo. — O quê? — Que passe. Ele desligou o rádio arrancando o painel frontal com um puxão. Ravi arregalou os olhos. — Isso foi caro? — Provavelmente — Clara disse. Ninguém falou mais. Mas agora havia algo novo no carro. Não resposta. Não cura. Direção. Voltaram para Greyline perto do amanhecer.
A névoa começava a dissolver nas ruas, mas o céu continuava fechado. Veldmoor parecia cansada de seus próprios segredos. O apartamento de Jhon recebeu os três com silêncio, caneca, janela e cheiro de café velho. Clara transferiu os arquivos para dois dispositivos diferentes.
Ravi colocou a caixa de objetos sobre a mesa, longe da caneca de Sara. Jhon ficou parado diante da janela. No vidro, viu apenas seu reflexo. Nenhuma Sara. Nenhum fantasma. Nenhum eco. Por um instante, sentiu falta até da assombração. Depois lembrou da voz dela. Não vira a música deles. Abriu o notebook. A notificação de Echoes in the Mist ainda estava lá. Dessa vez, Jhon abriu.
A demo começou com ruídos de névoa, piano distante, guitarras quase submersas. Era bela. Bela demais.
Queria transformar descoberta em melancolia elegante. Queria pegar o centro acústico, a igreja, os ecos, Sara, tudo, e organizar em uma canção que pudesse ser lançada, analisada, consumida. Jhon ouviu por menos de um minuto. Fechou. Pegou a guitarra. Ravi observou. — De novo? — Sim. — Vai quebrar o padrão? Jhon olhou para o dispositivo com a voz de Sara. — Não. Clara ergueu os olhos. — Então? Jhon conectou a guitarra. — Vou responder. Tocou uma sequência simples.
A mesma melodia que havia cantarolado para Sara no quarto sem vista, aquela sem letra, que não era da Lutheryn, ou que pelo menos ele não sabia se era. Tocou baixo. Sem tentar impressionar. Sem tentar vencer a demo. Apenas colocou ali um som que havia existido entre ele e Sara antes de virar arquivo, antes de virar relatório, antes de qualquer nome de ciclo. Depois gravou a própria voz. Não cantou letra. Disse: — Eu ouvi. Pausa. — Eu não prometo saber quem eu sou amanhã. Pausa. — Mas hoje eu não sou a música deles. Desligou. O sistema tentou classificar. A tela mostrou: Entrada incompatível com estrutura da faixa Erro de gênero Erro de intenção Resposta não utilizável Jhon leu. Pela primeira vez, sorriu. Pequeno. Cansado. Real. — Boa — Ravi disse. Clara soltou o ar, quase rindo. Lá fora, a névoa começou a levantar. A chuva continuava, porque Veldmoor não sabia fazer outra coisa.
Mas, naquela manhã, através do vidro molhado, Jhon viu um pedaço estreito de céu entre dois prédios. Não azul. Não claro. Apenas menos fechado. E isso, por enquanto, bastava.