Capítulo 15
What Remains of Me

O que restava de Jhon não apareceu como revelação. Apareceu como trabalho. Não o trabalho da Lutheryn. Não relatórios. Não gravações. Não reuniões em salas frias.
Não ciclos emocionais com nomes bonitos demais para as coisas que tentavam dominar. Outro tipo de trabalho. Mais lento. Mais ingrato. Mais silencioso. Levantar. Abrir a janela. Respirar. Guardar uma xícara. Lavar uma camiseta. Responder uma mensagem. Sair à rua. Voltar. Não abrir o arquivo errado. Não procurar Sara em todo reflexo. Não transformar cada dor em prova. Não transformar cada silêncio em sentença. Depois de Machine of Me, Jhon não se sentiu livre. Isso o irritou.
Havia uma parte dele que ainda esperava que escolha fosse uma espécie de porta. Você decide, atravessa, e o mundo reorganiza as paredes do outro lado. Mas nada em Veldmoor funcionava assim. A cidade continuava coberta pelo véu cinza. A chuva continuava. A Lutheryn continuava. Sara continuava morta. Os modelos anteriores continuavam presos em arquivos. Hartman continuava no décimo segundo andar, talvez mais quebrado, mas ainda Hartman. E Jhon continuava Jhon. Ou L-07. Ou uma coisa nova sem nome suficiente.
A diferença era que, agora, ele não esperava que alguém lhe entregasse uma definição. Definições tinham sido perigosas demais. Modelo. Produto. Vocalista. Sujeito. Máquina. Homem. Erro. Milagre. Todas pareciam pequenas demais quando usadas sozinhas. Então ele começou pelo que havia ficado. A caneca de Sara. A guitarra. A scar mark. O caderno. O apartamento. A chuva. O corpo. A voz. As pessoas que ainda batiam à porta.
No primeiro domingo depois da gravação, Jhon lavou a caneca de Sara. Não havia sujeira nela.
Ele já a lavara antes. A caneca estava limpa havia semanas, talvez meses. Ainda assim, permanecera no centro da mesa como se fosse intocável, cercada por um tipo de respeito que aos poucos havia se tornado prisão. Naquela manhã, acordou na cama. Isso ainda era novo.
Ficou alguns minutos olhando para o teto, esperando alguma coisa: culpa, assombração, voz, notificação, chuva mais forte, sinal. Nada veio além do ruído comum de Greyline acordando. Uma porta no corredor. A televisão do segundo andar. Um carro passando sobre água acumulada. A mercearia abrindo. A vida não tinha decência. Mas talvez tivesse insistência. Jhon levantou. Fez café. Bebeu antes de esfriar. Depois ficou diante da caneca.
A pequena falha na borda parecia menos trágica de manhã. Ainda doía. Tudo nela doía. Mas era também só uma caneca. Cerâmica. Peso. Objeto. Algo que Sara havia segurado com as duas mãos enquanto dizia coisas que ainda o alcançavam. Jhon a pegou. O gesto pareceu enorme. Não era. Era uma mão segurando uma caneca. Isso talvez fosse o mais difícil.
Levou até a pia. Abriu a torneira. A água bateu no fundo branco. Ele lavou devagar, como se pudesse pedir permissão pelo cuidado. Depois secou com o pano dobrado em quatro. Por hábito, quase guardou no armário. Parou. O armário pareceria apagamento. A mesa pareceria túmulo.
Então colocou a caneca na prateleira aberta, junto às outras, mas na frente. Visível. Disponível. Não central. Não escondida. Ali, ela deixou de ser altar. Virou parte da casa. Jhon ficou olhando. Sentiu vontade de chorar. Não chorou. Sentiu culpa por não chorar. Depois deixou a culpa passar sem transformá-la em julgamento. Aquilo também era trabalho. Clara apareceu à tarde com uma pasta. Não da Lutheryn.
Uma pasta simples, azul, comprada em papelaria, com elástico branco.
— Antes que você faça essa cara — ela disse ao entrar —, não é relatório. Jhon fechou a porta. — Que cara? — A de quem vai decidir se odeia algo antes de saber o que é. — Tenho muitas dessas. — Estou percebendo. Ela entrou e olhou para a prateleira. Viu a caneca. Não comentou de imediato. Mas seus olhos suavizaram por um segundo. — Café? — Fiz há pouco. — Então sim.
Jhon serviu duas xícaras. A de Sara ficou na prateleira. Clara percebeu também. Não disse nada. Esse era um dos talentos dela: saber quando o silêncio era informação suficiente. Sentaram-se à mesa. Clara abriu a pasta. Dentro havia nomes. Não códigos. Nomes.
Alguns escritos à mão. Outros impressos. Alguns seguidos por interrogações. Outros por datas aproximadas. Outros por pequenos fragmentos.
— Comecei pelos modelos anteriores — ela disse. — L-06 agora é Elias. Jhon olhou para a primeira página. Elias — anteriormente L-06 Resposta musical superior. Vínculo parcial com gravação coral de Saint Oran. Colapso de continuidade após ruptura induzida. Resíduo vocal preservado em Static Saint. Abaixo, Clara havia escrito: Gostava de coral. Talvez de vozes em conjunto. Jhon tocou a página. — Você não sabe se ele gostava. — Não. — Mas escreveu. — Sim. — Por quê? Clara demorou. — Porque alguém precisa começar pelo talvez. Jhon olhou para ela.
Havia cansaço em Clara. Não apenas físico. Algo ético. O cansaço de quem descobria que havia passado anos usando palavras técnicas para suportar um lugar que fazia coisas insuportáveis. Ela virou a página. Mara — hipótese para L-04 Registros de repetição melódica em padrões maternos. Resposta intensa a vozes femininas graves. Arquivo residual associado a canto de ninar sem origem definida. — Mara? — Jhon perguntou. — Nome provisório. — Por quê? Clara pareceu constrangida.
— Aparecia em um arquivo corrompido. Talvez não fosse nome. Talvez fosse sílaba. Mas… — Mas alguém precisa começar pelo talvez. Ela assentiu. Jhon continuou folheando. Noah — hipótese para L-03 Iria — hipótese para L-02 Cael — hipótese para L-05 Sem atribuição — L-01 — Falta o primeiro — ele disse. — Sim. — Por quê?
— Não encontrei nada que parecesse escolha. Só registros de falha. Jhon ficou olhando para a página vazia. L-01. O primeiro.
Sem nome. Sem vínculo. Sem continuidade. Sem restos identificáveis além de uma nota sustentada em baixa frequência, presente nos arquivos de Saint Oran como ruído de fundo. — Talvez ele tenha sido só começo — Clara disse, baixo. Jhon fechou a pasta. — Ninguém é só começo. Clara não respondeu. A frase ficou entre eles, fazendo seu próprio trabalho. Depois de um tempo, ela olhou para a prateleira. — Você mudou a caneca. — Sim. — Melhor? Jhon pensou. — Diferente. — Diferente é honesto. Ele assentiu. Clara tomou café. — A Lutheryn está reorganizando a narrativa. — Sobre Defect?
— Sobre tudo. Estão dizendo que foi uma performance não autorizada dentro de uma campanha experimental. Que você está afastado para recuperação. Que a banda continua. Jhon olhou para ela. — Continua? — Sem você, oficialmente. Por enquanto. A frase deveria doer. Doeu menos do que esperava.
Talvez porque a Lutheryn banda e a Lutheryn Labs tivessem se misturado demais para que ele soubesse o que perderia. Talvez porque ele ainda amasse música, mas já não conseguisse amar o palco que a empresa construíra para ele. — Ravi? — Saiu. Jhon levantou os olhos. — O quê?
— Pediu desligamento ontem. Fez um discurso horrível, segundo ele mesmo, e encerrou dizendo que preferia equalizar karaokê de funeral a continuar lá. Jhon quase sorriu. — Parece ele. — Foi mais bonito do que ele vai admitir. — E você? Clara olhou para a xícara. — Ainda estou. Jhon ficou quieto. Ela continuou antes que ele perguntasse:
— Não por lealdade. Estou copiando o que consigo antes que apaguem. Mas meu acesso já diminuiu. Hartman sabe. — Ele vai te derrubar. — Provavelmente. — Clara… — Eu sei. Ela ergueu os olhos. — Passei tempo demais dizendo “eu sei” para continuar parada. Jhon reconheceu a frase. Sara também dizia. Mas em Clara soava diferente. Menos desistência. Mais decisão. Ravi apareceu à noite com pizza fria.
— Eu trouxe jantar e desemprego — anunciou ao entrar. — Ambos com gosto duvidoso. Jhon abriu espaço. — Clara contou. — Traidora. — Ela parecia orgulhosa. Ravi fingiu limpar uma lágrima. — Finalmente, validação materna corporativa. Jhon pegou a caixa de pizza. — Você está bem? Ravi tirou o casaco molhado.
— Não faço ideia. Eu achei que ia sair de lá dançando sobre a mesa, mas no elevador deu um negócio estranho. Tipo luto, mas por um prédio escroto. — Você trabalhou anos lá.
— Pois é. A gente se apega até à prisão quando sabe onde fica o banheiro. Jhon quase riu. Ravi viu. — Isso foi quase uma risada. Vou registrar como vitória parcial.
Sentaram no chão, como faziam sem combinar desde que o apartamento se tornara abrigo. A pizza estava ruim. Comeram mesmo assim. Por um tempo, falaram de coisas pequenas. Do técnico de som do The Hollow Note. De Elias ameaçando cobrar cabo quebrado.
De uma postagem anônima que transformara Defect in the Code em teoria absurda sobre marketing reverso. De Clara chamando Ravi de “risco operacional ambulante”. De Greyline cheirando pior quando a chuva ficava fina demais. Depois o silêncio veio. Não pesado. Presente. Ravi olhou para a prateleira. — Você guardou a caneca. — Não guardei. — Tirou do centro. — Sim. — Isso parece grande. — Parece. Ravi assentiu.
— Sara ia fazer algum comentário muito melhor do que qualquer coisa que eu diga. — Provavelmente.
— Algo tipo… “parabéns por descobrir que objetos não são túmulos, seu idiota funcional”. Jhon olhou para ele. Ravi ficou pálido. — Desculpa. Isso foi… Jhon riu. Não muito. Mas riu.
O som saiu estranho, enferrujado, como uma porta que havia ficado tempo demais fechada. Ravi ficou imóvel.
— Cara, eu quase chorei agora e isso seria péssimo para minha marca. Jhon continuou rindo baixo. Não porque fosse engraçado o suficiente. Mas porque a frase era quase dela. Quase. E, pela primeira vez, o quase não pareceu profanação. Pareceu memória viva. A risada terminou em silêncio. Jhon enxugou os olhos, surpreso ao perceber que havia lágrimas. Ravi fingiu olhar para a pizza. — Eu sinto falta dela — disse. Jhon olhou para ele. — Você quase não conheceu.
— Conheci o suficiente para ela me chamar de “um caos tentando passar por pessoa” depois de três minutos de conversa. Isso cria vínculo. Jhon sorriu de leve. — Ela acertou.
— Claro que acertou. Esse era o problema dela. Precisão ofensiva. Ficaram quietos. Depois Ravi disse: — Você sabe que a culpa não é só sua, né? A frase apareceu sem aviso. Jhon olhou para a scar mark. — Sei. — Sabe mesmo ou sabe como frase? Ele respirou. — Ainda mais como frase. Ravi assentiu.
— Então vou repetir em linguagem menos terapêutica: você foi um idiota atrasado muitas vezes. Isso é verdade. Também é verdade que ela estava doente. Que a mãe dela morreu. Que a Lutheryn explorou vocês. Que Hartman é um desastre com cabelo arrumado. Que a cidade inteira parece projetada para deixar pessoas tristes. Essas verdades não se cancelam. Jhon ficou imóvel. A formulação era desajeitada. Talvez por isso funcionasse. — Eu cheguei tarde — disse. — Sim. A honestidade doeu. Mas não destruiu. Ravi continuou:
— E ela te amou mesmo sabendo que você era péssimo com tempo emocional. Jhon fechou os olhos. Tempo emocional. Sara teria gostado dessa. Ou teria desmontado. — Eu não sei o que fazer com isso.
— Talvez nada. Talvez carregar sem transformar em sentença perpétua. Jhon abriu os olhos. — Você andou lendo livros?
— Eu pedi demissão. Estou vulnerável a crescimento pessoal. É horrível. Dessa vez, o sorriso veio mais fácil. Pequeno. Mas veio. Nos dias seguintes, Jhon começou a reorganizar o apartamento. Não limpar. Não apagar. Reorganizar. Havia diferença.
Lavou roupas acumuladas. Jogou fora embalagens vazias. Guardou cabos. Separou anotações da Lutheryn de anotações pessoais. Tirou da parede um cartaz antigo da banda, ficou olhando para ele por um tempo, depois colocou dentro de uma pasta. Não rasgou. Não queimou. Não transformou tudo em gesto dramático.
A vida real, descobriu, raramente tinha cenas boas o bastante para o tamanho do que se sente. Às vezes, sobreviver era dobrar uma camiseta. Encontrou objetos de Sara em lugares pequenos. Um elástico de cabelo entre as almofadas do sofá.
Uma anotação dela em uma página do caderno: “melhor quando a guitarra parece hesitar.”
Um recibo da padaria onde haviam comprado pão em uma noite de chuva.
Um desenho da scar mark feito de forma torta na margem de um guardanapo. Cada objeto abria um cômodo dentro dele. Alguns ele guardou em uma caixa. Outros deixou onde estavam. O elástico de cabelo foi para a caixa. A anotação ficou no caderno. O recibo foi jogado fora depois de três tentativas.
O guardanapo foi colocado dentro da pasta azul de Clara, junto aos nomes dos modelos. Não fazia sentido lógico. Mas luto não era sistema. Na terceira tarde, parou diante da jaqueta da Lutheryn.
A jaqueta preta com a scar mark vermelha nas costas ainda estava pendurada no encosto da cadeira. Durante meses, fora figurino, identidade, armadura. Depois virou prova de uma empresa ocupando seu corpo. Depois virou algo difícil de tocar. Jhon a pegou. O tecido era pesado. Familiar. Vestiu.
O reflexo no vidro da janela mostrou o homem que o público conhecia: escuro, magro, cansado, marcado. O vocalista da Lutheryn.
Ele virou de costas para o espelho pequeno do corredor e olhou a marca vermelha. Não era dele. Não daquele jeito. Pegou uma tesoura. Cortou a costura ao redor do símbolo. Devagar. Sem raiva teatral. A scar mark da jaqueta saiu como pele retirada. Sobrou um rasgo nas costas. Irregular. Feio. Livre. Jhon segurou o pedaço de tecido com o símbolo. Pensou em jogar fora. Depois colocou na mesa.
Pegou linha preta, uma agulha que não lembrava de ter comprado e começou a costurar o rasgo. Não sabia costurar bem. Os pontos ficaram tortos. Melhor assim. A jaqueta deixou de parecer produto. Passou a parecer sobrevivente. Quando terminou, vestiu de novo.
No reflexo, havia um homem com uma cicatriz mal fechada nas costas e outra no braço. A do braço era dele. A das costas também começava a ser. Hartman ligou no quinto dia. Jhon quase não atendeu. Atendeu porque fugir de vozes havia dado muito poder a elas. — Jhon. A voz veio limpa, cansada. — Hartman. Houve um silêncio breve. — Você está bem? A pergunta teria sido ridícula antes. Agora também era. Mas menos. — Não. — Entendo. — Não acho que entende. — Provavelmente não. Essa resposta nova nele ainda causava estranheza.
Hartman parecia ter perdido parte de sua fé na própria precisão. Isso não o absolvia. Mas mudava a forma do perigo. — Clara saiu — Hartman disse. Jhon fechou os olhos. — Você demitiu? — Ela pediu. — Você aceitou. — Sim. — E os arquivos? — Ela levou mais do que deveria. — Vai atrás dela? Hartman ficou em silêncio. Depois: — Não. Jhon não acreditou completamente. Mas anotou a resposta dentro de si. — Por que ligou? — Para dizer que encerrei a linha Lutheryn. Jhon ficou imóvel. A chuva batia fraca na janela. — O que isso significa?
— Nenhum novo modelo. Nenhuma tentativa de restauração sem consentimento. Nenhum uso dos resíduos de L-01 a L-06 em material comercial. Os arquivos serão preservados em isolamento. Jhon riu, sem humor. — Você espera parabéns? — Não. — Perdão? — Também não. — Então o quê? Hartman demorou. — Testemunha. A palavra alcançou Jhon de um jeito inesperado. — Você quer que eu acredite? — Não. Quero que saiba. — Por quê? — Porque você perguntou os nomes. Jhon ficou quieto. Hartman continuou: — Clara me deixou a pasta azul. Jhon olhou para a mesa. A pasta estava ali. — Cópia? — Sim. — E? — Comecei a procurar. A voz dele falhou quase nada.
— L-01 talvez tenha tido uma nota favorita. Uma frequência que repetia quando não havia comando. Pode não ser nome. Mas é algo. Jhon sentou-se. — O quê? — A nota era Sol. O silêncio abriu espaço. — Então começa por Sol — Jhon disse. Hartman respirou do outro lado. — Sim. Sol. Não era nome inteiro. Mas era melhor que L-01. Era quase luz. Quase cruel em uma cidade sem sol. — Você sabe que isso não repara nada — Jhon disse. — Sei. — Saber não basta. — Também sei. — Mas é começo. Hartman não respondeu. Talvez porque começo fosse palavra perigosa para os dois. Antes de desligar, disse: — Sara tinha razão sobre você. Jhon segurou o telefone com força. — Sobre o quê? — Você estava preso. Não ausente. A ligação terminou. Jhon ficou ouvindo o silêncio. Por muito tempo, odiou Hartman naquele silêncio.
Mas, pela primeira vez, não precisou que o ódio organizasse todo o resto. Na noite seguinte, Jhon voltou ao The Hollow Note. Não para tocar. Para ouvir.
Ravi estava lá, claro. Fingindo que era coincidência e falhando miseravelmente. Clara também apareceu depois, usando um casaco escuro e carregando uma expressão de quem tentava aprender a estar em lugares sem monitorar saídas.
Elias, o dono do bar, colocou três copos sobre a mesa sem perguntar.
— Não é por conta da casa — disse. — Só para não acharem que virei generoso. Ravi ergueu o copo. — Sua frieza nos conforta. Jhon sentou na mesa lateral. A mesa da coluna. A mesa de Sara. Por um instante, o corpo recusou. Depois sentou mesmo assim. Não era tomar o lugar dela. Era aceitar que lugares também mudam de função.
Uma banda local tocava no palco. Eram jovens, barulhentos, nervosos. A guitarra soava alta demais. A bateria atropelava algumas entradas. O vocalista fechava os olhos nas partes erradas. A música era imperfeita de um jeito vivo. Sara teria gostado de duas frases e odiado três. Jhon quase pegou o caderno para anotar isso. Não pegou. Apenas ouviu. Ravi olhou para ele. — Tudo bem? Jhon pensou. — Não. Ravi assentiu. — Mas? Jhon olhou para o palco. — Mas estou aqui. Clara, sentada do outro lado, tocou o copo com os dedos. — Isso conta. Jhon olhou para ela. — Conta? Ela pensou. — Não como solução. Como presença. Presença. A palavra que Sara havia tentado ensinar antes de tudo quebrar. Jhon olhou para a mesa.
Na madeira, entre nomes riscados e círculos de copo, ainda havia o coração cortado ao meio por uma rachadura. Ele se lembrava dele. Da noite em que Sara voltou pela segunda vez. Da frase sobre medo de ser visto. Da pergunta sobre o que ele escondia. Jhon passou o dedo sobre a rachadura. Não pediu desculpas em voz alta. Já havia pedido muitas vezes dentro da cabeça. Naquela noite, fez outra coisa. Ficou. Até o último acorde da banda. Até os aplausos pequenos. Até o bar começar a esvaziar. Até a chuva diminuir de forte para fina. Quando se levantaram para ir embora, Elias o chamou. — Jhon. Ele virou. O dono do bar colocou algo sobre o balcão. Um envelope.
— Ela deixou comigo uma vez. Antes da ponte. Disse que talvez viesse buscar. Não veio. O mundo ficou quieto. Jhon se aproximou devagar. — Por que só agora? Elias sustentou o olhar.
— Porque antes você parecia querer qualquer coisa que doesse. Agora talvez consiga ler. Jhon pegou o envelope. Não abriu ali. No lado de fora, a letra de Sara. Para quando ele parar de tentar transformar tudo em fim. Ravi olhou para Clara. Clara olhou para Jhon. Ninguém disse nada. Jhon abriu o envelope em casa. Sentou-se à mesa. A caneca de Sara na prateleira, à vista. A jaqueta remendada no encosto da cadeira. A chuva fina na janela. A scar mark no braço. O envelope tremia levemente em sua mão. Dentro havia uma folha dobrada. A letra de Sara, inclinada, irregular, viva. Jhon,
Se você está lendo isso, provavelmente eu fui covarde com alguma conversa. Ou fui dramática. Ou o Elias decidiu bancar o guardião de cartas tristes, o que combina demais com ele. Jhon respirou. A voz dela veio inteira na cabeça. Não fantasma. Leitura. Memória.
Eu não sei quando vou te entregar isso. Talvez nunca. Escrevo porque existem coisas que eu consigo dizer melhor quando você não está olhando para mim como se estivesse esperando uma legenda. Ele quase sorriu. Quase.
Você me assusta às vezes. Não porque é frio. Você não é frio. Acho que muita gente confundiria, mas eu não. Você é como uma casa com os cômodos acesos, mas sem portas óbvias. Eu vejo luz aí dentro. Só não sei sempre como entrar. A garganta fechou.
Também sei que tem coisas em você que nem você entende. Vazios. Respostas prontas. Memórias sem raiz. Eu não sei o que isso significa. Talvez um dia você saiba. Talvez não. Mas preciso te dizer: eu nunca amei sua origem. Amei seus esforços. Jhon parou. Leu de novo. Eu nunca amei sua origem. Amei seus esforços. A frase ficou. Como cicatriz.
Amei quando você tentou ficar. Amei quando errou tentando. Amei quando perguntou antes de consertar. Amei quando ficou em silêncio do jeito certo e odiei quando ficou do jeito errado. Sim, existe diferença. Você ainda vai aprender. Uma lágrima caiu sobre a mesa. Não sobre a carta.
Ele afastou a folha um pouco, como se ainda pudesse proteger algo dela.
Se algum dia eu sumir dentro de mim, não transforme isso em culpa só sua. Você vai querer fazer isso porque culpa parece organização. Não deixa. Minha tristeza é mais antiga que nós dois. Minha mãe, meu cansaço, minha cabeça, a cidade, a chuva, tudo isso vem comigo. Você faz parte da minha história, Jhon, mas não é o autor da minha doença. Jhon cobriu a boca com a mão. O corpo queria quebrar. Mas a carta continuava. E ele leu.
Se eu te machuquei tentando explicar minha dor, desculpa. Se você me machucou tentando não sentir, eu sei que não foi por falta de amor. Mas amor não salva tudo. Eu odeio isso. Queria que salvasse. Seria mais simples, e eu gosto de coisas simples quando elas não mentem.
A cicatriz que mantém laços pra vida toda não significa que ninguém vai embora. Talvez signifique que, mesmo quando alguém vai, o laço muda de forma. Não vira prisão. Não vira dívida. Não vira sentença. Vira marca. E marca não serve só para lembrar ferida. Às vezes serve para lembrar que houve toque. Jhon olhou para a tatuagem. A pele parecia outra sob aquelas palavras.
Então, se um dia você estiver tentando transformar tudo em fim, não faz isso. Eu sei que você gosta de conclusão. Gosta de saber onde uma música termina. Mas algumas coisas continuam sem pedir sua permissão. Eu talvez continue em uma frase sua. Em uma música que eu não ouvi. Em uma caneca feia. Em uma piada ruim do Ravi. Em uma chuva que não precisa ser triste o tempo todo. Ele riu chorando. Uma vez. Pequeno. Quebrado.
Viva alguma coisa que não seja só consequência da minha ausência. Isso não me apaga. Prometo. A assinatura era simples. Sara. Abaixo, quase como um acréscimo:
P.S.: Se você demorou meses para abrir isso, eu sabia. Seu idiota funcional. Jhon baixou a carta. E chorou. Dessa vez, não como na ponte. Não como no vidro. Não como diante dos arquivos. Não como alguém tentando provar que era real.
Chorou como alguém sendo perdoado apenas o suficiente para começar a parar de se condenar errado. A culpa não desapareceu. A dor também não. Mas algo mudou de lugar. Sara não o absolvia de tudo. Não precisava.
A carta fazia algo mais difícil: devolvia a ele a parte que era dele carregar, e retirava de suas mãos aquilo que nunca deveria ter tentado possuir. Depois de muito tempo, Jhon dobrou a carta. Colocou dentro do caderno. Na página seguinte, escreveu: O que resta de mim não é o que a Lutheryn fez. Não é só o que Sara deixou. Não é apenas o que perdi. Parou. Respirou. Continuou: O que resta de mim é o que eu escolho não apagar. Lá fora, a chuva continuava.
Mas, naquela noite, pela primeira vez, Jhon abriu a janela e deixou o som entrar sem perguntar o que ele significava.