Capítulo 08
Ghost of You

Nos primeiros dias depois da ponte, Jhon não voltou para casa. Não de verdade.
Entrava no apartamento, deixava a guitarra no canto, tirava a jaqueta molhada, ficava parado por alguns minutos e saía de novo. Às vezes descia apenas até a rua e permanecia sob a marquise do prédio, olhando a chuva cair no beco. Às vezes caminhava por Greyline até os pés doerem. Às vezes atravessava bairros inteiros sem perceber que havia chegado a outro lugar. O apartamento conhecia Sara. Essa era a parte insuportável.
Conhecia o lugar onde ela sentava no chão, perto da estante. Conhecia a xícara diferente que ela preferia, embora nunca tivesse dito que preferia. Conhecia a manta cinza que ela puxava para os ombros quando a janela deixava entrar frio. Conhecia o ponto exato da cozinha onde ela havia segurado uma vela antes do primeiro beijo. As coisas guardavam o corpo dela melhor do que ele. E Jhon odiava as coisas por isso. No primeiro dia, deixou tudo intocado. No segundo, também.
No terceiro, percebeu que havia uma caneca no escorredor, lavada e seca, que Sara havia usado na última vez em que dormira ali. Ele ficou diante dela por quase dez minutos. Não conseguiu guardar. Não conseguiu usar. Não conseguiu quebrar.
Então a colocou no centro da mesa, como se uma caneca pudesse ser uma espécie de túmulo. Veldmoor continuava chovendo.
A cidade não respeitava o luto. Apenas oferecia a ele um cenário adequado demais.
O céu permaneceu baixo sobre Greyline. As fachadas escorreram água durante dias. Os postes amarelos acendiam cedo, como se a tarde desistisse antes de tentar. Perto da Veldt Bridge, flores apareceram presas à grade. Bilhetes dentro de sacos plásticos. Um guarda-chuva preto amarrado ao ferro. Pequenas velas protegidas da chuva por copos virados. Jhon não voltou lá. Não ainda. A ponte existia dentro dele com precisão suficiente. Não precisava vê-la. A Lutheryn Labs concedeu três dias.
Foi a palavra usada por Clara, embora talvez não tivesse sido escolha dela.
— Hartman disse para você ficar afastado até segunda — ela falou ao telefone. Jhon estava sentado no chão da sala, de costas para o sofá. — Ele disse conceder? Silêncio do outro lado. — Não. — Mas é isso. Clara respirou. — Jhon… — Está tudo bem. — Não, não está. A frase dela não tinha delicadeza. Talvez por isso tenha atravessado melhor. Jhon olhou para a mesa. A caneca de Sara continuava ali. — Ravi está com você? — ele perguntou. — Está aqui na Labs. — Ele sabe? — Sabe. — Ele fez piada? Clara demorou. — Não. Aquilo doeu mais do que deveria.
Ravi sem piada parecia uma cidade sem chuva. Errado. Grave demais. Um sinal de que alguma coisa no mundo havia saído do lugar de forma definitiva. — Você quer que a gente vá aí? — Clara perguntou. Jhon olhou ao redor.
A sala pequena. A guitarra. A caneca. O caderno fechado. A jaqueta da Lutheryn no encosto da cadeira. A scar mark no próprio antebraço, preta e vermelha, agora parecendo uma ferida que alguém havia esquecido de fechar. — Não. — Você tem certeza? — Não. Clara ficou quieta. — Então a gente vai. Ele não respondeu. Uma hora depois, Clara e Ravi bateram à porta. Jhon abriu.
Ravi segurava uma sacola de comida. Clara, café. Nenhum dos dois perguntou se podiam entrar. Entraram porque, naquele momento, pedir autorização teria sido uma forma covarde de permitir que ele recusasse ajuda. Ravi olhou para a sala. Viu a caneca no centro da mesa. Não disse nada.
Clara colocou o café na cozinha, tirou pratos do armário e começou a organizar comida sobre a bancada. Ravi ficou perto da janela, as mãos nos bolsos, olhando para o beco. — Trouxe aquele pão que você finge não gostar — ele disse. Jhon fechou a porta. — Eu não finjo. — Você come três. Jhon não respondeu. Ravi virou-se. Os olhos dele estavam vermelhos. Não muito. O suficiente. — Eu não sei o que dizer — Ravi falou. Jhon olhou para ele. — Melhor. — É. Imaginei que sim. Clara apareceu na porta da cozinha. — Come um pouco. — Não estou com fome. — Eu não perguntei. A frase poderia ter soado dura. Mas veio com a voz quebrada na medida exata. Jhon sentou-se à mesa.
Não comeu muito. Talvez duas mordidas. Talvez três. Ravi falou pouco. Clara menos ainda. O apartamento ficou ocupado por presenças vivas, e isso foi quase agressivo no começo. Depois, aos poucos, se tornou suportável. Em algum momento, Ravi apontou para a guitarra. — Quer que eu leve? Jhon olhou para o case. — Não. — Certo. — Por quê? Ravi deu de ombros. — Às vezes instrumentos ficam pesados demais num quarto. Jhon pensou na frase. — Ainda não. — Então ela fica. A guitarra ficou.
Clara lavou os pratos, embora Jhon dissesse que não precisava. Ravi jogou fora um saco de lixo. Ninguém tocou na caneca de Sara. Quando foram embora, a sala pareceu maior. Não melhor. Maior.
E o vazio ocupou o espaço deixado por eles com uma eficiência cruel. Na segunda-feira, Jhon voltou à Lutheryn Labs. Não porque estivesse pronto. Porque não sabia o que fazer com dias sem formato.
A rotina, mesmo ferida, ainda oferecia contorno. Acordar. Banho. Café. Metrô. Ashford. Crachá. Elevador. Décimo segundo andar. Luz fria. Vidro. Telas. Pessoas falando baixo. O mundo corporativo tinha uma habilidade obscena de parecer intacto depois que alguém morria. Ao entrar, sentiu olhares.
Alguns rápidos. Outros cuidadosos. A maioria tentou não parecer olhar. Isso era pior.
Ravi estava na própria mesa, fones no pescoço, mãos paradas sobre o teclado. Quando viu Jhon, levantou. — Ei. — Ei. Era tudo.
Clara se aproximou depois, tocou o braço dele por um segundo e soltou. — Hartman quer falar com você. Jhon quase riu. Não porque fosse engraçado. Porque era inevitável demais. — Agora? — Quando você puder. — Então agora. A sala de Hartman estava igual. Essa foi a primeira violência.
A mesa limpa. O vidro fechado. Ashford brilhando ao fundo. O ar frio. O tablet no canto direito. Nenhum objeto fora do lugar, nenhuma cadeira deslocada, nenhum sinal de que a cidade havia aberto um buraco sob os pés de alguém. Hartman estava de pé junto à janela. — Jhon. Ele não respondeu. Hartman virou-se.
Não havia falsa tristeza no rosto dele. Tampouco indiferença completa. Era algo pior: uma sobriedade funcional. — Sinto muito por Sara. O nome dela na sala pareceu errado. Quase uma invasão.
— Não fala o nome dela como se fosse parte de relatório — Jhon disse. Hartman recebeu a frase sem se mover. — Ela não era. — Não? O silêncio ficou frio. Hartman caminhou até a mesa. — Sara foi importante para você. — Foi? A palavra escapou antes de Jhon escolher. Hartman o observou. — É. — Então fala direito. Hartman assentiu uma vez. — Sara é importante para você. A correção não trouxe alívio.
Só confirmou o absurdo: a língua continuava funcionando mesmo quando o mundo não. Jhon permaneceu de pé. — Por que me chamou? Hartman tocou no tablet. Uma pasta apareceu. GHOST_OF_YOU_v0.3 Jhon não respirou. Por alguns segundos, não entendeu o que via. Depois entendeu. E entender foi pior. — Não — disse. — Jhon… — Não. A voz dele saiu baixa, mas a sala pareceu recuar. Hartman não fechou o arquivo.
— O ciclo registrou uma ruptura. É natural que a próxima fase trate da presença residual. — Presença residual. Jhon repetiu as palavras como se fossem veneno. Hartman percebeu tarde demais — ou fingiu. — Ausência ativa, se preferir. Jhon deu um passo em direção à mesa. — Ela morreu há três dias. — Eu sei. — Você não sabe nada. Hartman ficou quieto. Jhon apontou para o tablet. — Isso não é música. — Ainda não. — Não. Hartman apagou a tela. — Eu não estou pedindo que você grave hoje. — Que generoso. — Estou dizendo que o material existe. — Por quê? — Porque é o que fazemos. Jhon riu. Uma risada curta, sem som de humor. — Claro. Hartman sustentou o olhar dele. — Você acha que a dor deve ficar sem forma? — Acho que a dor dela não pertence a vocês. — E a sua? A pergunta veio como lâmina fina. Jhon ficou imóvel. Hartman continuou:
— A sua dor pertence a você, Jhon. Mas você é músico. Tudo que você sente eventualmente procura linguagem. — Não usa isso. — Isso o quê?
— Música. Linguagem. Arte. Não usa palavras bonitas para limpar o que vocês fazem. Pela primeira vez, Hartman pareceu verdadeiramente interessado. — E o que você acha que fazemos? Jhon abriu a boca. Fechou. A resposta estava ali, mas ainda sem forma. Vocês medem. Vocês esperam. Vocês provocam. Vocês recolhem o que sobra. Vocês chamam de ciclo. Vocês chamam de arte. Vocês chamam de conexão. Mas ainda havia uma parte dele que não queria saber. Porque saber exigiria fazer algo. E ele mal conseguia respirar. — Eu vou embora — disse. Hartman não tentou impedir. — O arquivo ficará bloqueado. Jhon parou junto à porta. — Apaga. — Não. Ele virou lentamente. Hartman não desviou. — Algumas coisas não devem ser apagadas. — Você não está falando dela. — Também estou. Jhon saiu antes que a raiva virasse algo físico. No corredor, Clara estava esperando. — O que ele fez? Jhon passou direto. — Nada. Ravi levantou ao vê-lo. — Jhon? Ele não parou.
Desceu pelo elevador sozinho, atravessou a recepção, saiu para Ashford e caminhou sob a chuva sem direção clara. O crachá ainda estava preso ao casaco. A marca vermelha da Lutheryn refletia em uma poça quando ele passou. Por um instante, teve vontade de arrancá-lo e jogar no bueiro. Não arrancou. Ainda não. Sara começou a aparecer na terceira noite. Não como fantasma. Não no começo. Apareceu como erro.
Jhon havia dormido pouco desde a ponte. Quando fechava os olhos, via detalhes inúteis: o guarda-chuva caído, a página molhada, a luz vermelha refletida na estrutura de ferro, a scar mark no braço dela. O cérebro escolhia fragmentos e os repetia com a crueldade de um refrão ruim.
Na terceira noite, acordou no sofá com a sensação de que alguém havia falado seu nome. A sala estava escura. A chuva batia na janela.
O notebook, fechado sobre a mesa, refletia uma linha fraca de luz do beco. — Jhon. Ele sentou imediatamente. O som não se repetiu. Foi o suficiente. Acendeu a luminária. Nada. A caneca de Sara continuava no centro da mesa. A jaqueta na cadeira. A guitarra no case. A porta fechada. Jhon passou as duas mãos pelo rosto. — Cansaço — disse em voz alta. A palavra caiu na sala e não convenceu ninguém.
Levantou-se, foi até a cozinha, bebeu água. Quando voltou, parou.
No vidro da janela, por uma fração de segundo, havia uma silhueta atrás dele. Virou. Nada. Voltou a olhar para o vidro. Só seu reflexo. Seu rosto pálido. Seus olhos fundos. A scar mark no antebraço. E, atrás dele, a sala vazia. Jhon ficou parado até o coração diminuir. Depois abriu o notebook. Não queria. Abriu. O arquivo estava lá. GHOST_OF_YOU_v0.3 Bloqueado. Sem download disponível. Sem autorização. Mas o título bastava. Ele fechou o notebook com força. A sala escureceu de novo. No silêncio que veio, ouviu a voz de Sara na memória: Algumas coisas não precisam repetir para machucar. Jhon encostou a testa na mesa. A memória era pior que assombração. Porque não precisava existir para estar ali. Nos dias seguintes, Sara apareceu em tudo. Na padaria, quando alguém pediu café sem açúcar. No metrô, quando uma mulher fechou um guarda-chuva preto.
Na livraria de Greyline, onde um livro caiu de uma pilha e abriu em uma página marcada.
No corredor do prédio, quando a lâmpada piscou três vezes antes de estabilizar.
Na cozinha, quando a luz faltou por alguns segundos e Jhon lembrou do beijo. Não havia descanso. O mundo inteiro havia se tornado capaz de citá-la. Às vezes, Jhon sentia raiva. Não dela. Nunca dela.
Da cidade. Dos objetos. Da própria memória. De tudo que continuava funcionando sem pedir permissão. Elevadores subiam. Cafés eram servidos. Guitarras desafinavam. Pessoas riam em bares. O metrô anunciava estações. A chuva caía. Como se a permanência de Veldmoor fosse uma ofensa pessoal. Em uma tarde, encontrou Sara em uma música. Não da Lutheryn.
Uma música antiga tocava em uma loja de discos usados perto do The Hollow Note. Jhon havia entrado sem saber por quê. Talvez porque a chuva estivesse forte. Talvez porque o corpo ainda procurasse lugares onde ela pudesse estar. A melodia veio baixa, arranhada, saindo de caixas ruins. Nada demais. Mas Sara teria comentado a letra. Jhon soube exatamente qual frase ela teria odiado. E qual teria guardado.
Teve que sair antes que o dono da loja perguntasse se precisava de ajuda. Na rua, encostou-se à parede molhada e tentou respirar. Foi ali que Ravi o encontrou. — Eu estava te procurando. Jhon não perguntou como.
Greyline era grande, mas os caminhos de quem sofre ficam previsíveis. — Clara está preocupada — Ravi disse. — E você?
— Eu estou fingindo que estou só acompanhando a preocupação dela porque sou covarde. Jhon olhou para ele. Ravi encolheu os ombros. — Estou preocupado pra caralho. Jhon desviou o olhar para a chuva. — Não sei o que fazer. — Ninguém sabe. — Isso não ajuda. — Quase nada ajuda. Essa é a parte ridícula. Ficaram debaixo da marquise.
Ravi não tentou abraçá-lo. Não tentou dar conselho. Só ficou ao lado, o que talvez fosse o máximo que aprendera observando Sara. Depois de alguns minutos, disse: — Hartman está mexendo numa faixa. Jhon fechou os olhos. — Eu sei. — Não canta. — Não vou. — Estou falando sério. Jhon olhou para ele. Ravi não estava brincando. — Por quê?
— Porque tem música que a gente canta para sair vivo dela. E tem música que alguém quer que você cante para descobrir quanto você sangra. A frase ficou entre eles, pesada. — Clara sabe?
— Clara suspeita de tudo e fala metade. É o jeito dela de sobreviver. — E você? — Eu faço piada. — Agora não fez. Ravi olhou para a chuva. — Pois é. Péssimo sinal. Jhon voltou à ponte no sétimo dia. Foi sem planejar.
Saiu do apartamento à noite, caminhou por Greyline, passou pelo The Hollow Note, atravessou ruas estreitas e quando percebeu estava perto do Rio Vel. A névoa subia da água em camadas baixas. Os postes da Veldt Bridge desenhavam círculos amarelos na chuva. Ele parou antes de pisar na ponte. O corpo recusou. Por alguns segundos, não conseguiu mover as pernas.
A última vez que estivera ali, o mundo havia se dividido em antes e depois. Voltar parecia uma forma de traição. Como se o lugar pertencesse ao acontecimento e nenhum passo posterior tivesse direito de existir. Mas a ponte continuava ali. Indiferente. Ferro, chuva, ferrugem, luz. Jhon caminhou. No meio, havia flores novas.
Bilhetes. Velas apagadas. Um pedaço de fita preta amarrado à grade. Alguém havia deixado uma pequena folha dentro de um saco plástico, com uma frase escrita à mão: Que a água não leve o que o amor guardou. Jhon ficou diante da grade. Não tocou.
O rio corria escuro embaixo, invisível em partes pela névoa. O som da água se misturava à chuva e ao trânsito distante. Veldmoor parecia respirar por baixo da ponte. — Eu cheguei tarde — disse. A frase saiu baixa. Nenhuma resposta. — Eu sei que não foi só isso. A chuva bateu em seu rosto.
— Eu sei que você estava doente. Eu sei que eu não era a causa. Eu sei que amor não é ponte quando alguém não consegue atravessar. Parou. A garganta fechou. — Mas eu cheguei tarde. O celular vibrou. Ele não olhou. — Eu não sei o que fazer com isso. A scar mark no antebraço parecia mais escura sob a chuva. Jhon puxou a manga para cima. Mostrou a tatuagem ao rio, à ponte, a ninguém. — Você fez também. A voz falhou. — Por quê? A pergunta ficou pendurada no ar frio.
Então, no reflexo da água abaixo, por uma fração impossível de segundo, ele viu vermelho. Uma linha. Como uma cicatriz. Jhon se inclinou. Nada. Só água escura. Só chuva. Só luz quebrada. Atrás dele, alguém disse: — Não procura resposta aí. Jhon virou. Não havia ninguém perto.
A ponte estava quase vazia. Duas pessoas passavam ao longe, de guarda-chuva, sem olhar para ele. A voz tinha sido de Sara. Ou memória. Ou culpa. Ou tudo. Jhon recuou da grade. O coração batia forte demais. — Sara? A palavra desapareceu na chuva. Nenhuma resposta.
Mas, por um instante, sentiu um cheiro que não pertencia à ponte: vela apagada, café frio e o perfume leve que ela usava algumas vezes, quase sempre misturado à chuva. Jhon fechou os olhos. Quando abriu, estava sozinho. Como antes. Como agora. Na manhã seguinte, ele abriu o arquivo. Não porque Hartman pediu. Não porque a Lutheryn precisava. Não porque o ciclo avançava.
Abriu porque, depois da ponte, o título deixou de parecer apenas uma violência e passou a parecer uma porta que ele odiava por existir. Ghost of You. A versão ainda era incompleta.
Guitarra mínima. Piano distante, quase afogado. Uma base baixa como ruído de cidade atrás de uma parede. A voz guia era temporária, sem emoção suficiente para ferir. A letra falava de ver alguém em reflexos, ouvir passos em corredores vazios, procurar uma presença nos objetos, sentir que a ausência aprendeu a ocupar cadeira. Jhon ouviu de pé. Não sentou. Não fechou os olhos. Não tocou guitarra. Quando a demo terminou, a sala ficou grande demais. Ele ouviu de novo. Na segunda vez, a voz guia pareceu ofensiva. Na terceira, inútil. Na quarta, Jhon pegou a guitarra. Não seguiu a cifra.
Tocou por cima em silêncio, baixo, deixando as notas entrarem nos espaços vazios. Não queria embelezar. Não queria resolver. Queria apenas abrir pequenas rachaduras por onde a música pudesse respirar sem fingir consolo. Gravou sem perceber. Uma linha simples.
Três notas que voltavam como alguém batendo em uma porta que já sabe fechada. Ouviu. Apagou. Gravou de novo. A segunda ficou pior. Apagou. A terceira, também. Às 02:14, parou. A caneca de Sara continuava na mesa. Jhon olhou para ela. — Eu não sei fazer isso — disse. O notebook gravou a voz ambiente. Ele não percebeu.
Na manhã seguinte, ao abrir o projeto, encontrou um arquivo novo na pasta local: ambient_take_0214.wav Duração: 00:07. Ele clicou. Ruído de sala. Chuva. A voz dele, baixa: Eu não sei fazer isso. Depois, quase imperceptível, outra coisa. Um som fraco. Talvez interferência. Talvez respiração. Talvez uma voz. Jhon aumentou o volume. O áudio chiou. Entre o ruído e a chuva, algo parecia formar duas sílabas. Jhon. Ele tirou os fones como se tivessem queimado. A sala ficou em silêncio. A caneca na mesa. A janela. A chuva. O notebook. Jhon olhou ao redor. — Não. Mas o corpo inteiro dele dizia sim. Hartman ouviu o arquivo naquela tarde. Jhon não enviou. Mesmo assim, Hartman ouviu. Chamou-o à sala sem explicar. Quando Jhon entrou, o áudio já estava aberto no tablet. ambient_take_0214.wav — Como você tem isso? — Jhon perguntou. Hartman não respondeu de imediato. Apertou play. Ruído. Chuva. A voz de Jhon. Eu não sei fazer isso. Chiado. A quase voz. Jhon. Hartman pausou. — Interessante. Jhon sentiu algo frio subir pelo peito. — Apaga. — Não. — Apaga agora. — Isso pode ser interferência. — Então apaga. — Pode não ser. Jhon ficou imóvel. Hartman observou a reação. — Você ouviu Sara. Não era pergunta. Jhon deu um passo para trás. — Não fala isso. — É o que você acha que ouviu. — Eu disse para não falar. Hartman levantou-se devagar.
— Luto cria permanências auditivas. A mente reconstrói padrões em ruído. Especialmente vozes. Especialmente nomes. É comum. — Então por que você está interessado? Hartman não respondeu rápido o bastante. Jhon entendeu. Não tudo. Mas mais do que antes. — Vocês estão coletando isso. — O sistema sincroniza arquivos locais do projeto. — Eu não gravei para vocês. — Você gravou dentro de um pacote da Lutheryn. Jhon segurou a borda da cadeira. Por um instante, teve vontade de arremessá-la contra o vidro. Não fez. Hartman continuou, mais baixo: — Jhon, não estou tentando tirar Sara de você. — Você já tirou. A frase saiu antes que ele pudesse medir. Hartman ficou quieto. — Você acha isso? Jhon não respondeu. Porque a resposta era impossível.
Hartman não empurrou Sara para a ponte. Não causou a doença da mãe. Não inventou a depressão. Não criou todos os atrasos de Jhon. Mas havia algo no modo como a Lutheryn ocupava os espaços vazios. Algo no modo como sempre chegava com a música certa no momento errado. Algo no modo como observava, media e chamava de ciclo aquilo que outros chamariam de tragédia. — Não sei — Jhon disse. — Então descubra antes de condenar. — Eu não trabalho para descobrir isso. Hartman olhou para ele. — Trabalha, sim. Jhon saiu. Dessa vez, arrancou o crachá no elevador. No térreo, jogou no lixo. Caminhou até Greyline sem guarda-chuva. Quando chegou em casa, estava encharcado. Na mesa, o notebook exibia uma notificação nova. GHOST_OF_YOU_v0.4 atualizado Elemento ambiente incorporado Aderência emocional: acima do previsto
Jhon fechou o notebook com força suficiente para quase quebrar a tela. A chuva bateu contra a janela. E, no vidro escuro, por um segundo, ele viu Sara atrás dele. Não como lembrança. Não como reflexo. Como presença.
O rosto pálido. O cabelo úmido. O casaco escuro. A scar mark no braço esquerdo. Jhon não se virou. Tinha medo de vê-la desaparecer. Tinha mais medo de vê-la continuar ali. — Isso é real? — ele perguntou. A figura no vidro não respondeu. Apenas olhou para ele com a tristeza de quem também não sabia. Então a luz do beco piscou. Uma vez. Duas. Três. E ela sumiu. Jhon ficou diante da janela até amanhecer. Na manhã seguinte, não foi à Lutheryn. Nem à ponte. Nem ao The Hollow Note.
Ficou no apartamento, sentado à mesa, diante da caneca de Sara, ouvindo o arquivo de sete segundos repetidas vezes. Ruído. Chuva. A voz dele. Eu não sei fazer isso. Chiado. E, no fundo, talvez Sara. Talvez culpa. Talvez só a cidade.
Mas, em Veldmoor, algumas coisas não precisavam ser verdadeiras para assombrar. Bastava que continuassem.