Capítulo 04
Maré em Crescimento

Sara voltou ao The Hollow Note na semana seguinte. Não no dia seguinte. Não dois dias depois. Na semana seguinte. Jhon notou isso antes de admitir que estava esperando.
Durante sete dias, Veldmoor continuou cinza, o trabalho continuou frio, a Lutheryn continuou produzindo relatórios e o nome de Sara continuou aparecendo em lugares onde não deveria: na margem do caderno, entre anotações de guitarra, no reflexo da janela, na pausa estranha antes de um refrão. Ele tentou tratar aquilo como qualquer outro dado novo. Uma pessoa. Uma conversa. Uma reação incomum à música. Uma frase precisa demais. Mas Sara não cabia em tabela. E isso, para Jhon, era desconfortável.
A Lutheryn Labs havia transformado o pré-teste de Before I Was Real em números antes que a manhã seguinte terminasse. Resposta geral acima do previsto. Pico de atenção no refrão. Taxa de silêncio pós-faixa incomum. Aderência vocal alta. Interações espontâneas relevantes. Jhon leu o relatório sem abrir a parte final. Não soube explicar por quê. Talvez porque soubesse que ali estaria algo sobre ela. Talvez porque não quisesse vê-la transformada em linha. Na segunda-feira, Hartman chamou uma reunião curta.
Clara estava presente. Ravi também. Outros três analistas, dois produtores e alguém do marketing que usava óculos de armação clara e falava como se cada frase tivesse sido revisada antes de nascer. A faixa tinha funcionado. Essa foi a palavra usada. Funcionado. Jhon ouviu tudo em silêncio.
— O título gerou resposta imediata — disse a mulher do marketing. — Há identificação forte com a ideia de existência afetiva. Ravi, ao lado de Jhon, murmurou: — Existência afetiva. Meu coração pediu demissão. Clara fingiu não ouvir. Hartman estava na ponta da mesa.
— A faixa permanece em teste por mais duas semanas. Nada de lançamento amplo ainda. Queremos observar maturação orgânica.
Jhon olhou para a tela, onde a capa provisória aparecia ao lado de gráficos. A imagem trazia uma janela escura, chuva no vidro e uma silhueta sem rosto. — O público respondeu ao quê? — ele perguntou. A sala ficou alguns segundos em silêncio. Hartman virou lentamente o olhar para ele. — Ao vínculo. — Mas a música ainda não fala de vínculo. Não exatamente. — Fala da condição anterior a ele. — Solidão? — Incompletude. A palavra pousou sobre a mesa. Jhon não gostou dela. Talvez porque fosse exata demais.
— As pessoas gostam de se reconhecer em ausências — disse a mulher do marketing. — Desde que exista a promessa de preenchimento. Ravi mexeu no próprio café. — Isso foi uma frase horrível. — Foi uma frase honesta — ela respondeu. Hartman não repreendeu nenhum dos dois. Apenas olhou para Jhon. — Você cantou melhor do que nos ensaios. — A música mudou no palco. — Não. — Hartman sorriu de leve. — Você mudou no palco. Jhon sentiu Clara olhando para ele. Não respondeu.
O restante da reunião seguiu com ajustes técnicos, projeções e calendário. Ao final, Hartman pediu para falar com ele a sós. Todos saíram, exceto Jhon. A sala ficou mais silenciosa sem Ravi. — Houve uma interação pós-show — Hartman disse. Jhon permaneceu de pé. — Com o público? — Com uma pessoa específica. O corpo dele reagiu antes da mente. Pouco. O bastante. Hartman viu. — Nome? Jhon ficou alguns segundos em silêncio. — Sara. — Sobrenome? — Não perguntei. — Interessante. — Por quê? Hartman desligou a tela. — Porque você costuma perguntar o que é necessário. — Não era necessário. — E ainda assim você anotou o nome. Jhon olhou para ele. Hartman não deveria saber disso.
Então lembrou do notebook. Dos relatórios. Da sincronização automática. Do pacote local. Das anotações talvez enviadas junto com arquivos de estudo. A Lutheryn fazia isso. A Lutheryn sincronizava tudo. Era rotina. Nada de estranho. Nada que justificasse o incômodo subindo pela nuca. — Era uma observação pessoal — Jhon disse. — Tudo é pessoal antes de ser compreendido. Jhon não respondeu.
Hartman caminhou até a janela. Ashford brilhava do lado de fora, limpa e molhada.
— Não estou censurando, Jhon. Pelo contrário. A música precisa encontrar coisas fora do plano. É assim que sabemos que ela está viva. — Música não está viva. — Não? Hartman olhou para ele com curiosidade quase gentil. — Então por que algumas continuam depois que acabam? Jhon não teve resposta.
Saiu da reunião com a impressão de que havia deixado alguma coisa sobre a mesa. Não sabia o quê. Sara voltou em uma quinta-feira.
O The Hollow Note estava mais vazio que na noite do pré-teste. Havia menos gente, menos ruído, menos expectativa. A Lutheryn não anunciou nada. A banda tocaria um set menor, quase informal, entre uma apresentação local e outra. Jhon chegou cedo, ensaiou, ajustou a guitarra, revisou entradas, respondeu a mensagens que não importavam. Às vinte e duas, viu o guarda-chuva preto. Sara entrou sem pressa. Dessa vez, não parecia ter fugido da chuva. Parecia ter escolhido atravessá-la.
Sentou-se na mesma mesa lateral, perto da coluna, e abriu o caderno antes mesmo da primeira música. Jhon quase errou o início. Quase. Ravi percebeu. Depois do set, não fez piada. Apenas colocou uma cerveja fechada sobre o amplificador e disse: — A mesa da coluna continua ocupada. Jhon guardou a palheta no bolso. — Vi. — Só estou informando. Como serviço público. — Obrigado. — De nada. Sou um pilar da comunidade. Jhon foi até ela depois de guardar a guitarra.
Sara não levantou os olhos imediatamente. Escrevia uma frase, riscava, escrevia outra. Quando ele chegou, fechou o caderno com o dedo ainda marcando a página. — Hoje você não entrou por causa da chuva — ele disse. — Entrei apesar dela. — Isso é melhor? — É mais honesto. Ele puxou a cadeira à frente dela. — Posso? Sara olhou para a cadeira, depois para ele. — Você pergunta como se já soubesse a resposta. — Não sei. — Então pode. Jhon sentou-se.
Por um tempo, não disseram nada. O bar seguia ao redor, mas de uma maneira distante. O som de copos, de cabos sendo arrastados, de uma risada perto da porta, tudo parecia pertencer a outro cômodo. — Você escreveu de novo — ele disse. — Eu escrevo sempre. — Sobre a música? — Sobre o que ela empurra. — E o que ela empurrou hoje? Sara apoiou o cotovelo na mesa. — Menos prova de vida. Mais medo. Jhon franziu a testa. — Medo de quê? — De ser visto e não saber o que fazer depois. Aquilo ficou entre os dois.
Jhon olhou para a mesa. Havia marcas antigas na madeira: nomes riscados, círculos de copo, um coração pequeno cortado ao meio por uma rachadura. — Você fala como se me conhecesse. — Não conheço. — Então? — Eu presto atenção. — Isso é perigoso? Sara sorriu sem mostrar os dentes. — Depende do que você está escondendo. Ele deveria ter respondido com facilidade. Não estou escondendo nada. Era o que qualquer pessoa diria. Mas a frase não veio. Não porque fosse mentira. Porque ele não tinha certeza de que seria verdade. Sara percebeu. Não pressionou. Foi isso que o fez continuar sentado. As semanas seguintes não tiveram um começo claro. Não houve decisão. Não houve convite formal.
Não houve uma noite em que os dois dissessem que aquilo agora era alguma coisa. Sara apenas começou a aparecer.
Às vezes no The Hollow Note. Às vezes na padaria perto da estação. Às vezes em uma livraria estreita de Greyline onde livros usados ficavam empilhados até o teto e a água da chuva entrava pela porta sempre que alguém chegava. Às vezes em mensagens curtas, enviadas em horários estranhos. A chuva hoje parece menos paciente. Ou: Ouvi sua música num mercado. Ficou pior entre legumes. Ou: Você já reparou que Veldmoor nunca fica em silêncio? Jhon respondia tarde demais algumas vezes. Outras, rápido demais. Nunca sabia qual era o equilíbrio correto.
Sara não parecia se importar com constância. Importava-se com presença. Era diferente, e Jhon demorou a perceber. Para Jhon, presença ainda era uma coisa prática. Responder. Aparecer. Levar. Buscar. Resolver. Corrigir. Ele confundia cuidado com eficiência.
Quando Sara falava, ele tentava entender o que precisava ser feito. Quando ela silenciava, procurava a causa. Quando ela dizia que estava cansada, pensava em horários, rotas, remédios, soluções possíveis. Sentimento, para ele, ainda chegava como problema sem instrução.
E a Lutheryn ocupava qualquer espaço que ele não soubesse nomear.
Uma reunião de última hora. Um relatório. Um ensaio. Uma revisão de voz. Um chamado de Hartman. Uma faixa que precisava ser ajustada antes do amanhecer. Jhon não escolhia se ausentar. Ele apenas obedecia à próxima tarefa. Só que, para Sara, ausência não ficava menor por ter explicação. Ela não queria mensagens perfeitas. Queria que ele estivesse ali quando estava ali. Isso deveria ser simples. Não era.
Em uma noite de sábado, caminharam por Greyline depois de um show pequeno. A banda havia tocado apenas músicas antigas. Jhon estava menos tenso. Sara usava um casaco escuro e mantinha as mãos nos bolsos, o caderno guardado na bolsa. — Você ensaia muito — ela disse. — É parte da rotina. — Você gosta de rotina? — Sim. — Por quê? Jhon pensou. — Porque ela evita desperdício. Sara olhou para ele. — De tempo? — De energia. De erro. — E de surpresa? Ele não respondeu de imediato. Sara sorriu.
— Desculpa. Eu tenho mania de cutucar onde as pessoas fecham a porta. — Eu percebi. — Isso te incomoda? — Ainda não sei. Ela aceitou a resposta. Caminharam mais alguns metros.
A chuva caía fina, quase invisível, mas suficiente para desenhar uma camada brilhante sobre os cabelos dela. Jhon percebeu que queria oferecer a jaqueta. Percebeu também que já estava pensando no gesto como procedimento: tirar, entregar, garantir conforto. Cuidado como ação. Mas algo nele hesitou. Sara não parecia querer ser protegida da chuva. Parecia querer que alguém ficasse nela junto. Então Jhon não ofereceu a jaqueta. Apenas diminuiu o passo. Sara percebeu. — Melhor — disse. — O quê? — Nada. Mas sorriu.
Na esquina, pararam diante de uma parede coberta de cartazes antigos da Lutheryn. A maioria estava rasgada. A scar mark aparecia repetida em vermelho, ora inteira, ora partida por camadas de papel. Sara tocou um dos cartazes com a ponta dos dedos. — Esse símbolo aparece em tudo. — É a marca da banda. — Parece uma ferida. — É essa a ideia. — De quem? Jhon abriu a boca. Fechou. Nunca tinha pensado nisso direito. — Da Lutheryn. — A banda ou a empresa? A pergunta veio leve, mas acertou um ponto exato. — As duas se misturam. — Isso é bom? — Funciona. Sara riu baixo. — Você sempre volta para essa palavra. — Qual? — Funciona. Jhon olhou para o cartaz. — É uma boa palavra. — É uma palavra triste. — Por quê? — Porque muita coisa funciona sem estar viva. A chuva bateu no papel rasgado.
Jhon sentiu a frase encontrar algum lugar dentro dele e não sair mais. Sara falava pouco sobre a mãe no começo. Quando falava, era em pedaços. Uma consulta na terça. Um exame que atrasou. Um medicamento que não chegou. Uma madrugada no hospital.
Uma ligação interrompida porque a voz do outro lado ficou cansada demais. Jhon tentava ajudar. Do jeito dele.
Pesquisava horários. Organizava rotas. Oferecia carona. Montava listas. Sugeriu um aplicativo de lembretes para medicação. Uma planilha de consultas. Um contato de atendimento domiciliar. Sara ouviu tudo. Agradeceu algumas vezes. Em outras, apenas ficou em silêncio. Até que, numa noite no apartamento dele, ela disse: — Você sabe que eu não sou um projeto, né? Jhon estava na cozinha, servindo café. Parou. — Eu sei.
— Às vezes parece que você tenta me organizar para eu doer menos. Ele virou-se para ela.
Sara estava sentada no chão da sala, perto da estante baixa, folheando o livro que ele nunca lembrava de ter comprado. — Isso é ruim? — Não é ruim querer ajudar. — Então? — É ruim quando ajudar vira uma maneira de não sentir junto. Jhon segurou a xícara por tempo demais. O vapor subia entre eles. — Eu não sei como fazer isso — disse. A frase saiu antes que ele pudesse corrigir. Sara fechou o livro. Não havia vitória no olhar dela. Nenhuma satisfação por ter arrancado uma confissão.
Apenas uma tristeza pequena, como se ela tivesse encontrado exatamente o que suspeitava, mas preferisse estar errada. — Eu sei — ela disse. Ele entregou o café. Sara segurou a xícara com as duas mãos. — Você não precisa saber tudo. — Preciso saber o suficiente. — Não. Às vezes você só precisa ficar. Ficar. A palavra parecia simples. Um verbo imóvel. Uma instrução sem manual. Jhon sentou-se ao lado dela no chão. Não falou. Não ofereceu solução. Não pegou o celular. Não abriu o notebook. Ficou. Sara encostou o ombro no dele alguns minutos depois. Nada mais aconteceu. Por alguma razão, aquilo pareceu maior do que um beijo. O beijo veio em outra noite.
Não foi no bar, nem na ponte, nem embaixo de uma chuva cinematográfica. Foi na cozinha do apartamento dele, depois que a luz piscou três vezes e apagou por causa de uma queda de energia em Greyline. O prédio inteiro mergulhou em sombra.
Do lado de fora, a cidade continuava acesa em pedaços: janelas, letreiros, faróis, postes amarelos. A chuva desenhava linhas no vidro.
Sara estava perto da pia, segurando uma vela que encontrara em uma gaveta.
— Você tem vela e não lembra de ter comprado o livro — ela disse. — Prioridades estranhas. — Você é cheio delas. A chama iluminava metade do rosto dela.
Jhon percebeu que, no escuro, Sara parecia menos protegida. Como se a ausência de luz tirasse dela uma camada de defesa. Havia cansaço nos olhos. Um cansaço que não era da noite, nem da chuva, nem da mãe doente. Era mais antigo. — Você está bem? — ele perguntou. Sara olhou para a vela. — Hoje? — Sim. — Não muito.
A resposta foi tão direta que ele não soube onde colocar as mãos. — Quer falar? Ela pensou. — Não agora. — Quer que eu faça alguma coisa? Sara olhou para ele. — Você está fazendo. — O quê? — Perguntando antes de tentar consertar. Jhon não respondeu.
O prédio continuava escuro. A geladeira desligada fazia falta no silêncio. Em algum apartamento vizinho, alguém reclamou alto. Uma criança riu. A chuva aumentou. Sara deu um passo. Depois outro. A vela ficou entre os dois. — Você parece triste quando não entende o que sente — ela disse. — Como você sabe que eu não entendo?
— Porque você fica imóvel. Como se esperasse uma legenda aparecer. Jhon quase sorriu. — E aparece? — Não. — Então o que eu faço?
Sara levantou a mão livre e tocou o rosto dele com a ponta dos dedos. — Respira. Ele respirou. — De novo. Ele obedeceu. Sara se aproximou. O beijo não teve urgência. Não foi uma explosão.
Foi uma pergunta feita sem palavras e respondida com cuidado. Jhon sentiu primeiro a mão dela em seu rosto, depois o calor da vela, depois a boca, depois algo dentro dele abrindo espaço de um jeito que não parecia seguro nem perigoso. Apenas novo. Quando se afastaram, a luz ainda não tinha voltado. Sara encostou a testa no peito dele. — Viu? — ela murmurou. — O quê? — Você ficou. Jhon fechou os olhos.
Naquela noite, depois que ela foi embora, ele escreveu no caderno: Ficar talvez seja um tipo de música. Riscou. Escreveu de novo: Sara. Não riscou. A tatuagem aconteceu quase um mês depois. Não foi uma decisão impulsiva.
Ou talvez tenha sido, mas Jhon a construiu com lógica suficiente para não parecer.
A scar mark estava em toda parte. Na jaqueta, nos cartazes, nos cases, nos relatórios, na tela inicial dos sistemas da Lutheryn. Sempre fora parte do ambiente, uma assinatura visual do projeto. Mas, depois de Sara, o símbolo começou a mudar de peso. Ela continuava chamando aquilo de ferida. — Não marca — dizia. — Ferida. — Scar mark — ele corrigia, meio automático. — Isso é só inglês tentando deixar dor elegante. Jhon gostava quando ela dizia coisas assim. Como se desmontasse palavras até encontrar o osso.
Em uma tarde sem ensaio, caminharam até o Mist Quarter. A neblina subia do Rio Vel e cobria as ruas baixas, deixando as igrejas antigas com aparência de lembrança mal revelada. Sara conhecia uma pequena loja de tatuagem entre uma oficina de molduras e um café que parecia fechado havia anos, embora sempre houvesse alguém lá dentro.
— Você já pensou em fazer uma? — ela perguntou, diante da vitrine. — Tatuagem? — Não. Uma declaração fiscal. Sim, tatuagem. — Não. — Nunca? — Não vi motivo. Sara olhou para ele. — E agora?
Jhon acompanhou o olhar dela até o reflexo da própria jaqueta na vitrine. A scar mark vermelha aparecia nas costas, distorcida pelo vidro molhado. — É símbolo da Lutheryn. — Até você decidir que é outra coisa. A frase ficou nele. Entraram.
A tatuadora era uma mulher de cabelo raspado de um lado, braços cobertos de linhas finas e expressão de quem já ouvira histórias demais para se surpreender com qualquer uma. Jhon mostrou o símbolo no celular. — Esse aqui? Sara interveio antes dele responder. — Mas não como logo. Como cicatriz. A tatuadora olhou para ela, depois para Jhon. — Preto e vermelho? Jhon assentiu. — Antebraço esquerdo? Ele olhou para Sara. Ela não disse nada. Não precisava. — Sim. A dor da agulha foi mais simples do que ele esperava.
Não doeu pouco. Mas fazia sentido. Uma dor com começo, forma, finalidade. Ele conseguia entender esse tipo de dor. Sara ficou sentada ao lado dele o tempo todo.
— Por que está fazendo? — ela perguntou, quando a primeira linha vermelha começou a aparecer sob a pele. Jhon pensou em várias respostas. Porque é a marca da banda. Porque faz parte do ciclo. Porque você disse que podia ser outra coisa. Porque quero que algo em mim não seja só função. Nenhuma parecia completa. Então disse:
— Porque algumas coisas precisam ficar no corpo para eu não transformar em tarefa. Sara não respondeu. Mas seus olhos mudaram.
Depois que terminou, ele olhou para o antebraço coberto por plástico transparente. A scar mark agora estava nele. Uma linha vertical irregular, preta e vermelha, como se a pele tivesse sido aberta e costurada com luz escura. Não parecia logo. Não ali. Sara tocou o ar perto da tatuagem, sem encostar. — Ficou bonita. — Você acabou de dizer que não era marca. Era ferida. — Algumas feridas são bonitas depois que param de tentar fechar. Jhon olhou para ela. — É a cicatriz que mantém laços pra vida toda — disse. Não sabia de onde veio a frase. Sara ficou imóvel. A chuva batia na vitrine. A tatuadora, atrás deles, fingiu organizar instrumentos. — Repete — Sara pediu. Jhon se sentiu estranho. — A cicatriz que mantém laços pra vida toda. Sara desviou o olhar para o braço dele. Por um instante, pareceu que ia chorar. Não chorou. Apenas segurou a mão dele com força. — Guarda essa frase — ela disse. — Por quê? — Porque um dia você vai fingir que esqueceu. Jhon apertou a mão dela. — Eu não esqueço tão fácil. Sara olhou para ele com uma tristeza quase carinhosa. — Você esquece coisas que nem sabe que esqueceu. Ele não soube responder. Do lado de fora, Veldmoor continuava coberta pelo véu cinza.
Mas, naquela tarde, por alguns minutos, a cidade pareceu menos fria. Ou talvez fosse só a pele dele ardendo.