Capítulo 06

Room Without a View

25 min5.534 palavras
Abertura do capítulo 6 — Room Without a View

Depois da morte da mãe, Sara começou a desaparecer em vida. Não de uma vez.

Isso teria sido simples demais para que alguém percebesse a tempo.

Ela continuava respondendo mensagens. Continuava aceitando café. Continuava indo ao apartamento de Jhon em algumas noites. Continuava fazendo comentários precisos sobre as músicas. Continuava lembrando datas que ele esquecia e esquecendo coisas pequenas que antes jamais deixaria passar. Mas algo nela havia se recolhido para um quarto sem janela. Jhon via. Não entendia.

A diferença entre ver e entender começou a assombrá-lo antes mesmo de ele saber que aquilo era assombração.

Nas primeiras semanas, ele chamou de luto. Era uma palavra limpa. Uma palavra que cabia em frases, em consultas, em mensagens de pessoas que não sabiam o que dizer. Luto explicava o silêncio. Explicava a cama desfeita. Explicava os pratos acumulados na pia. Explicava as plantas sem água, o caderno fechado, os olhos parados na janela que não mostrava nada além do prédio vizinho. Luto explicava muita coisa. Por isso mesmo, talvez explicasse pouco.

Sara morava em uma rua estreita perto do limite entre Greyline e Mist Quarter, no segundo andar de um prédio antigo onde a escada cheirava a madeira molhada. O apartamento era menor que o de Jhon, mas mais habitado. Havia livros empilhados, plantas que sobreviviam teimosamente à falta de sol, fotografias presas em uma parede, xícaras diferentes, papéis, uma manta azul no sofá. Antes, aquele excesso parecia vida. Depois, começou a parecer interrupção.

Os livros ficaram abertos no mesmo lugar por dias. A manta azul passou a viver no sofá como se também estivesse de luto. A mesa acumulou copos, embalagens, papéis dobrados e remédios que Sara dizia não precisar, embora não jogasse fora. Na parede, uma fotografia da mãe sorrindo em um dia raro de céu claro parecia cada vez mais deslocada, como uma prova deixada por alguém que tentava convencer o mundo de que a luz já havia existido ali. A janela da sala dava para outro prédio. Tão perto que quase parecia parede.

Quando chovia, a água escorria pelo vidro e deformava a fachada oposta, mas não abria nada. Nenhuma rua. Nenhum horizonte. Nenhuma árvore. Nenhum pedaço de céu que prestasse. Sara odiava aquela janela.

— Ela não mostra o lado de fora — disse uma noite. — Só confirma que existe outro muro.

Jhon estava sentado na poltrona à frente dela. Distância segura. Distância errada.

— Podemos mudar as coisas de lugar — ele sugeriu. — Talvez a mesa perto da janela, o sofá na outra parede. Fica mais aberto. Sara sorriu sem humor. — Você ouviu “muro” e pensou em reorganizar móveis. Ele percebeu tarde demais. — Eu só pensei que talvez ajudasse. — Eu sei. Aquelas duas palavras estavam se tornando um lugar ruim. Eu sei.

Como se ela já esperasse que ele tentasse ajudar do jeito errado e, por isso, não tivesse mais força para se surpreender.

Jhon olhou para a própria mão sobre o joelho. A scar mark aparecia sob a manga da camiseta, preta e vermelha, já completamente cicatrizada. A tatuagem parecia menos recente agora. Não ardia mais. Não chamava atenção. Havia se tornado parte dele de um jeito que o incomodava e confortava ao mesmo tempo. Sara notou o olhar. — Ainda gosta dela? — Da tatuagem? — Da cicatriz. Ele passou o polegar perto da marca, sem tocar diretamente. — Sim. — Por quê? A pergunta deveria ser simples.

Jhon pensou na resposta que havia dado na loja. Porque algumas coisas precisam ficar no corpo para eu não transformar em tarefa. Pensou na frase que veio depois. A cicatriz que mantém laços pra vida toda. Pensou em Sara segurando a mão dele, pedindo para repetir. Pensou que, desde então, a marca parecia pertencer menos à Lutheryn e mais aos dois. — Porque ela ficou — respondeu. Sara olhou para ele. Havia cansaço nos olhos, mas também uma ternura quase ferida. — Às vezes eu queria ser assim. — Como? — Uma coisa que fica sem precisar lutar todos os dias. Jhon sentiu o peito apertar.

O corpo dele procurou procedimento. Perguntas. Ações. Caminhos. Havia algo a fazer quando alguém dizia uma frase assim. Deveria haver. — Sara… — Não transforma isso em emergência. Ele parou. Ela se arrependeu no mesmo instante. Ele viu. — Desculpa. — Não precisa. — Preciso. Só estou cansada de todo mundo se assustar comigo. — Eu não me assustei. Sara virou o rosto para a janela. — Mentiu melhor dessa vez. Ele não respondeu. A chuva continuava.

Do lado de fora, Veldmoor permanecia coberta pelo véu cinza, mas ali dentro o cinza era outro. Mais espesso. Mais parado. O cinza de uma sala onde o ar não circula. Jhon levantou-se devagar e sentou no sofá, ao lado dela. Não perto demais. Perto o bastante. Sara não encostou nele de imediato.

Ficaram assim por vários minutos, olhando para a janela sem vista. Então ela apoiou a cabeça no ombro dele. — Melhor — murmurou. Jhon ficou imóvel. Dessa vez, não como parede. Como alguém tentando aprender a ser abrigo sem virar prisão.

A Lutheryn enviou o projeto de Room Without a View numa manhã de quarta-feira.

O arquivo chegou às 09:22, enquanto Jhon revisava um painel de escuta repetida de The Weight of Goodbye. A faixa ainda não havia sido lançada oficialmente, mas já circulava em versões de teste, recortes internos, sessões fechadas. A Lutheryn trabalhava com etapas. Nada nascia de uma vez. Tudo era maturado, observado, polido, medido.

Quando a notificação apareceu, Jhon ficou olhando para o título por tempo demais. ROOM WITHOUT A VIEW_v0.8 Abaixo, a função emocional: Isolamento / suspensão / ausência de horizonte Ele fechou a janela. Abriu de novo. Fechou. Ravi, da mesa ao lado, percebeu. — Isso foi uma briga silenciosa com o computador? — Faixa nova. — Ah. Isso é sempre pior. Clara apareceu atrás deles com uma pasta digital aberta. — Já liberaram para você? — Sim. — Estranho. Achei que Hartman fosse esperar. Jhon olhou para ela. — Por quê? Clara hesitou. Era a segunda vez em poucas semanas que ela fazia isso. — Pelo momento. Ravi tirou os fones do pescoço.

— Clara, se a Lutheryn esperasse o momento certo para mexer em dor alheia, a gente vendia jingle de supermercado. Clara lançou um olhar para ele. — Hoje não. Ravi fechou a boca. Jhon abriu o pacote da música.

Havia a demo, a letra, a guia vocal, os stems, as notas de intenção e um relatório de alinhamento do ciclo. A organização era impecável. Quase obscena. Ele colocou os fones. Não deveria ouvir ali. Ouviu. A música era menor que as outras. Não em importância. Em espaço.

Começava com uma guitarra contida, quase seca, como som vindo de dentro de um quarto com pouca mobília. A bateria entrava baixa, sem explosão, segurando um pulso que parecia cansado demais para correr. O baixo não sustentava o chão; parecia pesar sobre ele.

A voz guia cantava sobre uma janela que não levava a lugar algum, uma cama que guardava o formato de alguém que não conseguia levantar, uma luz que batia no vidro e desistia. Jhon tirou os fones antes do refrão. Ravi olhou para ele. — Ruim? — Não. — Pior. Jhon não respondeu. Clara baixou os olhos para a tela dele. — Eles usaram imagens muito próximas? — Próximas de quê? Ela não respondeu. Não precisava. Jhon fechou o arquivo.

Do outro lado da sala, Hartman saía de uma reunião. Parou ao ver os três juntos. — Algum problema com a faixa? — Ainda não ouvi inteira — Jhon disse. — Ouça. — Vou ouvir em casa. — Não. Ouça aqui. A ordem veio suave. Isso a tornava mais difícil de recusar.

Ravi abriu a boca, talvez para fazer uma piada, mas Clara tocou o braço dele de leve. Jhon colocou os fones de volta. Ouviu. Dessa vez inteira.

No refrão, a música falava de um quarto sem vista, mas não como lugar físico. Como estado. Um espaço interno onde a pessoa continuava respirando, mas o mundo já não entrava. Havia uma linha sobre bater na própria parede por dentro e ninguém ouvir. Outra sobre dormir para não ter que escolher ficar acordado. Jhon ficou parado depois que acabou. No painel, a forma de onda continuava imóvel. — Sua leitura? — Hartman perguntou. Jhon tirou os fones. — É eficiente. Ravi fechou os olhos, como se a palavra tivesse doído nele. Hartman observou Jhon. — Só isso? Jhon olhou para a tela. — Não deveria ser. — Mas é? — Sim. Hartman assentiu.

— A eficiência emocional é uma etapa necessária. Depois vem a verdade. — E quem decide quando virou verdade? A pergunta saiu antes de Jhon medir. Clara levantou os olhos. Ravi ficou completamente imóvel. Hartman demorou um segundo para responder. — O público. — Ou vocês? Hartman não pareceu ofendido. Pareceu interessado. — As duas coisas nem sempre estão separadas. Jhon sentiu algo nele se fechar. Hartman apontou para o arquivo. — Leve para casa. Preciso da sua interpretação inicial amanhã. — Amanhã? — Sim. — Tenho compromisso. — Com Sara? Dessa vez, Jhon não disfarçou. — Sim. Hartman inclinou a cabeça. — Então talvez esta faixa seja especialmente importante. O ar entre eles mudou. Pouco. O bastante. — O que isso quer dizer? — Jhon perguntou. Hartman sorriu, mas sem calor. — Que algumas músicas chegam quando precisamos delas. Jhon guardou o notebook com cuidado demais. — Ou quando alguém decide enviar. Saiu antes que Hartman respondesse. Naquela noite, Jhon não foi para casa. Foi direto para o apartamento de Sara. Levou comida.

Não porque achasse que isso resolveria alguma coisa, mas porque havia aprendido que, em certos dias, “você comeu?” podia ser uma pergunta fácil demais e ainda assim necessária. Sara demorou para abrir.

Quando abriu, parecia ter acabado de acordar, embora fossem quase oito da noite. Usava um moletom largo, calça escura e meias diferentes. O cabelo estava preso de qualquer jeito. O rosto, sem maquiagem, deixava à mostra uma palidez que o apartamento parecia amplificar. — Eu trouxe comida — ele disse. Sara olhou para a sacola. — Isso é uma solução? — É comida. Ela o observou por um segundo. Depois abriu espaço para ele entrar. — Boa resposta.

O apartamento estava escuro, exceto pela luminária perto do sofá. A janela mostrava o prédio em frente, uma parede de tijolos úmidos com duas janelas acesas. Em uma delas, alguém passava de um lado para o outro. Na outra, uma televisão piscava azul. Jhon colocou a sacola sobre a mesa. Sara sentou-se no sofá. — Como foi o trabalho?

A pergunta parecia automática, mas havia algo atrás dela. Talvez cansaço. Talvez desconfiança. Talvez apenas a tentativa de manter um formato de conversa. Jhon pensou em mentir. Normal. Foi normal. Nada importante. Mas estava cansado de frases que chegavam já mortas. — Recebi uma música nova. Sara fechou os olhos. — Da Lutheryn. — Sim. — Sobre o quê? Jhon ficou em silêncio. Sara abriu os olhos. — Jhon. — Isolamento. Ela riu sem som. — Claro. — Eu não sabia. — Não disse que sabia. — Parece. — Parece porque eu estou tentando não dizer coisas piores.

Ele se sentou na poltrona, depois se levantou quase imediatamente e foi para o sofá. Sara percebeu o gesto. Não comentou. — O título é Room Without a View — ele disse. O rosto dela mudou. Não muito. Só o suficiente para ele se arrepender. Sara olhou para a janela. — Eles são bons. — Em quê?

— Em escolher nomes que parecem ter entrado na minha casa sem pedir. Jhon sentiu a garganta fechar. — Eu não preciso tocar para você. — Mas vai tocar para outras pessoas. Ele não respondeu. — É trabalho — Sara disse, antes dele. A frase, na voz dela, parecia menor e mais cruel. — Eu ia dizer que posso tentar mudar a leitura. — Isso também é trabalho. — Sara…

— Desculpa. — Ela levou as mãos ao rosto. — Eu estou cansada. Não de você. Não exatamente. De mim. Do mundo. De acordar e lembrar que preciso atravessar outro dia inteiro dentro da minha própria cabeça. Jhon ficou imóvel. Sara abaixou as mãos. — Viu? — O quê? — Você fica assim. — Como?

— Como se eu tivesse falado em uma língua que você reconhece, mas não fala. Jhon tentou responder. Não conseguiu.

Pela primeira vez, não porque estivesse procurando a frase certa.

Mas porque talvez Sara tivesse acabado de explicar algo sobre ele melhor do que qualquer relatório da Lutheryn. Ele se aproximou. — Eu não sei falar, mas posso ficar. Sara olhou para ele. Os olhos dela estavam úmidos. — Hoje isso basta? — Não sei. — Eu também não. Ele ficou.

Comeram pouco. A comida esfriou. Sara falou da mãe em fragmentos: uma receita perdida, uma música antiga que ela odiava quando criança e agora sentia falta, o modo como a casa da infância parecia impossível de revisitar porque tudo ali continuaria existindo sem a pessoa que dava sentido às coisas. Jhon ouviu. Às vezes, perguntava algo. Às vezes, não.

Quando Sara começou a chorar, ele não disse que ficaria tudo bem. Não disse que ela era forte. Não disse que entendia. Apenas segurou a mão dela.

A scar mark no antebraço dele apareceu quando a manga subiu. Sara tocou a marca com o polegar, devagar. — Você fez isso por mim? — ela perguntou. Jhon olhou para a tatuagem. — Fiz por nós. Sara fechou os olhos. A resposta pareceu doer nela de uma forma que ele não esperava. — Isso é muito peso — ela disse. — Não precisa ser.

— Tudo que promete durar vira peso quando a gente não sabe se consegue chegar até amanhã. Jhon apertou a mão dela. — Você consegue. Sara abriu os olhos. — Não faz isso. — O quê? — Transformar minha sobrevivência numa frase de incentivo. Ele soltou o ar devagar. — Desculpa. Ela assentiu. — Eu queria uma janela em você — disse. — Em mim? — Sim. — O que isso significa? Sara olhou para a janela real, aquela que não mostrava nada.

— Significa que eu passo muito tempo tentando adivinhar o que acontece aí dentro. E às vezes parece que você também está do lado de fora, olhando para a mesma parede. Jhon sentiu a frase entrar. Lenta. Sem tradução. — Eu tento — disse. — Eu sei. — Mas não basta. Sara ficou em silêncio. Depois disse: — Às vezes basta. Às vezes não. Essa é a parte horrível. Jhon dormiu no sofá naquela noite. Sara não pediu. Ele não ofereceu como gesto grandioso.

Apenas ficou tarde, a chuva aumentou, ela parecia exausta demais para continuar falando e acordada demais para ficar sozinha. Então ele pegou a manta azul, deitou no sofá e deixou a porta do quarto entreaberta. No meio da madrugada, acordou com um som baixo. Não era choro. Era respiração curta. Levantou-se e foi até a porta.

Sara estava sentada na cama, de costas para ele, olhando para a parede. A janela do quarto também não dava para lugar algum. Apenas outro prédio, outra parede, outro pedaço de Veldmoor recusando horizonte. — Sara? Ela não se virou.

— Eu pensei que, depois que ela morresse, pelo menos o medo ia parar. Jhon ficou na porta. — E não parou? Ela balançou a cabeça.

— Só ficou sem objeto. Antes eu tinha medo dela piorar. Medo do telefone tocar. Medo de dormir e perder alguma coisa. Agora eu acordo e o medo ainda está aqui, mas não tem mais o que fazer com ele. Jhon entrou devagar. — Posso sentar? Sara assentiu. Ele se sentou na beira da cama, mantendo espaço entre os dois. — Eu não sei o que dizer — falou. — Ainda bem. Ela olhou para ele.

— Quando você sabe o que dizer, quase sempre parece menos verdadeiro. Jhon aceitou aquilo. Ficaram em silêncio. Depois de algum tempo, Sara encostou a cabeça no ombro dele. — Canta um pedaço — pediu. — De quê? — Qualquer coisa que não seja da Lutheryn. Jhon pensou.

Havia centenas de músicas que ele conhecia. Algumas antigas, algumas que tocava antes da Lutheryn, outras aprendidas por técnica, outras por acaso. Mas, naquele instante, todas pareciam ligadas demais ao mesmo lugar. Então ele cantarolou sem letra.

Uma melodia simples, baixa, quase infantil. Não sabia de onde vinha. Talvez de algum lugar esquecido. Talvez de lugar nenhum. Sara fechou os olhos. — Essa é sua? — Não sei. — Parece. Ele continuou. A chuva acompanhou do lado de fora. Por alguns minutos, o quarto sem vista teve som. Não horizonte. Mas som. E, naquela noite, isso precisou bastar. No dia seguinte, Jhon chegou atrasado à Lutheryn. Doze minutos. Para a maioria das pessoas, aquilo não significaria nada. Para ele, parecia uma falha registrada no corpo. Ravi viu primeiro. — Devo chamar um padre, um médico ou o RH? — Dormi pouco. — Isso é uma explicação normal. Estou desconfortável. Clara apareceu logo depois. — Hartman perguntou por você. — Quando? — Há onze minutos. Jhon olhou para o relógio. — Certo. — Ele está na sala ORPHEUS. Ravi fez uma careta. — Nome sutil para uma sala de música. Jhon deixou a mochila na mesa e foi.

A sala ORPHEUS era menor que a ECHO. Não tinha janelas. As paredes eram revestidas por painéis escuros, e o som ali parecia morrer mais rápido. Hartman estava sentado sozinho, ouvindo a demo de Room Without a View em volume baixo. — Você se atrasou — ele disse. — Sim. — Sara? Jhon fechou a porta. — Sim. Hartman pausou a música. — Como ela está? A pergunta parecia humana. Jhon desconfiou justamente por isso. — Mal. — E você? — Cansado. Hartman assentiu, como se a resposta confirmasse algo. — Dormiu lá? Jhon não respondeu. Hartman não insistiu. — A faixa precisa de você hoje. — Eu não estou pronto. — Ninguém está pronto para algumas músicas. — Isso não é argumento. — É observação. Jhon ficou de pé perto da porta. — Não quero transformar isso nela. — E se já for? A frase veio calma. Quase gentil. Jhon sentiu raiva. — Você não conhece Sara. — Conheço o efeito dela em você. O silêncio da sala mudou de densidade. — Isso não é a mesma coisa — Jhon disse. — Não. Mas é o que podemos medir. Ele deu um passo para trás. Hartman percebeu. — Jhon, você está confundindo exploração com compreensão. — Não tenho certeza se existe diferença aqui. Pela primeira vez, algo no rosto de Hartman endureceu. Não raiva. Interesse. — Essa é uma frase nova em você. — Talvez eu esteja aprendendo. Hartman levantou-se. — Com ela? Jhon não respondeu. — Ótimo — Hartman disse. Aquilo foi pior que repreensão. Ótimo.

Como se o aprendizado fosse resultado. Como se Sara fosse variável. Como se a dor dela e o desconforto dele servissem ao ciclo de alguma maneira que Jhon ainda não conseguia ver. — Não vou gravar hoje — Jhon disse. — Vai. — Não. Hartman caminhou até a mesa e abriu um arquivo.

Na tela, a forma de onda da música apareceu ao lado de anotações.

— Não precisa gravar a versão final. Só preciso de uma leitura inicial. Voz baixa. Sem produção. Uma tomada. — Por quê? — Porque a faixa ainda está sem centro. — E esse centro sou eu? — Hoje, sim.

Jhon pensou em Sara sentada na cama, pedindo qualquer coisa que não fosse da Lutheryn. Pensou na melodia sem letra. Pensou no quarto sem vista tendo som por alguns minutos. — Uma tomada — disse. Hartman assentiu. — Uma tomada. Jhon entrou no estúdio pequeno ao lado. O microfone já estava montado. Claro que estava. Colocou os fones. A demo começou. Guitarra seca. Bateria distante. Baixo como peso. Ele cantou. Não como performance. Não como entrega.

Cantou como alguém dentro de um quarto tentando lembrar se havia uma porta. Quando terminou, tirou os fones sem esperar aprovação. Hartman ouviu a gravação do lado de fora. Não disse “bom”. Não disse “funcionou”. Disse apenas: — Agora a faixa sabe onde está. Jhon saiu da sala sem responder. Na mesa dele, havia uma mensagem de Sara. Obrigada por ontem. Abaixo, outra: Desculpa por hoje antes mesmo de hoje acontecer. Jhon leu. Sentou-se. Escreveu: Não precisa pedir desculpa por existir difícil. Demorou antes de enviar. Quando enviou, Sara demorou quase uma hora para responder. Você está aprendendo frases melhores. Ele olhou para a tela por tempo demais.

Ravi apareceu ao lado, viu a expressão dele e, pela primeira vez, não fez piada. Os dias seguintes oscilaram. Havia noites em que Sara parecia voltar.

Não como antes, porque antes já não existia, mas como uma versão possível de si mesma. Nessas noites, ela caminhava com Jhon por Greyline, reclamava do café ruim de um bar, corrigia uma frase da letra de uma música, ria quando Ravi dizia alguma coisa absurda no ensaio. Nessas noites, Jhon quase acreditava que o quarto sem vista tinha sido apenas uma passagem. Então vinham os outros dias. Dias em que ela não respondia. Dias em que dizia estar cansada demais para ver alguém.

Dias em que Jhon aparecia mesmo assim e a encontrava deitada no sofá, olhando para o teto. Dias em que a pia acumulava louça. Dias em que o caderno permanecia fechado.

Dias em que ela dizia “estou aqui” com uma voz que parecia não estar. A depressão não tinha roteiro. Isso deixava Jhon perdido.

Na música, mesmo quando havia improviso, existia tom. Existia campo. Existia retorno. Existia possibilidade de erro e correção.

Com Sara, às vezes tudo que ele podia fazer era estar presente em uma dor que não melhorava por ele estar ali. Essa impotência o corroía. E, como tudo que não sabia nomear, ele transformava em controle.

Começou a passar no mercado antes de ir ao apartamento dela. Começou a deixar comida na geladeira. Começou a organizar remédios por horário. Começou a limpar a cozinha quando ela dormia. Começou a responder mensagens de pessoas por ela quando ela pedia e, às vezes, quando não pedia. Sara percebeu. Claro que percebeu. — Para — disse uma noite. Jhon estava lavando uma xícara. — O quê? — Deixar minha casa com cara de que eu falhei em ser pessoa. Ele desligou a torneira. — Não é isso. — Então o que é? — Eu estou ajudando. — Está tentando apagar evidências. A frase o feriu porque, de algum modo, era verdadeira. Sara levantou-se do sofá.

— Eu sei que está sujo. Eu sei que tem prato. Eu sei que tem roupa. Eu sei que as plantas estão morrendo. Eu vejo tudo. Eu estou aqui dentro. — Eu não disse que você não vê.

— Mas age como se eu não visse. Como se você pudesse consertar o cenário e isso fosse consertar alguma coisa em mim. Jhon secou as mãos devagar. — Não sei o que fazer quando você está assim. — Eu também não. — Então como eu ajudo? Sara passou as mãos pelo rosto. — Talvez hoje você não ajude. Talvez hoje você só não piore. Ele ficou em silêncio. A frase não tinha sido dita para destruir. Mas destruiu um pouco mesmo assim. Sara viu. — Desculpa. — Para de pedir desculpa por dizer a verdade. — Então para de me fazer sentir cruel por ela. Jhon recuou. A discussão não explodiu. Talvez teria sido melhor se explodisse. Em vez disso, ficou presa no apartamento como fumaça. Ele foi embora mais cedo naquela noite. Sara não pediu que ele ficasse. E isso foi pior do que pedir para ele ir. Na Lutheryn, Room Without a View avançou para pré-teste interno. A gravação de Jhon foi usada como referência principal. Ele descobriu isso por acaso.

Ou por um tipo de acaso que só existia em empresas onde tudo era registrado e nada era admitido como intenção. O arquivo estava em uma pasta compartilhada: RWAV_ref_JHON_take01

A tomada que Hartman prometera ser apenas leitura inicial havia se tornado centro da faixa. Jhon olhou para o nome do arquivo por quase um minuto. Clara apareceu ao lado dele. — Você não sabia? — Não. Ela fechou os olhos por um instante. — Jhon… — Você sabia? — Soube ontem. — E não me disse? — Achei que Hartman tinha falado. Era mentira pequena. Não por maldade. Por proteção atrasada. Jhon entendeu e, mesmo assim, sentiu raiva.

Ravi chegou logo depois, percebeu a tela e soltou um palavrão baixo. — Isso é muita sacanagem. Clara olhou para ele. — Ravi. — Não, Clara. Isso é. Ele disse que era uma tomada, não disse? Jhon fechou a pasta. — Não importa. — Claro que importa. — A música precisava de centro. A frase saiu amarga. Ravi percebeu. — Não usa a língua deles contra você. Jhon ficou imóvel. A frase de Ravi tocou em algo fundo. A língua deles.

Eficiência. Aderência. Ciclo. Centro. Resposta. Material. Leitura. Quantas palavras dele eram realmente dele? Hartman chamou Jhon no fim da tarde. Ele foi.

A sala de Hartman tinha a mesma vista de Ashford, a mesma temperatura baixa, a mesma ausência de objetos pessoais. O tablet estava sobre a mesa. — Você viu o arquivo — Hartman disse. Não era pergunta. — Você disse uma tomada. — E foi. — Não disse que seria usada como referência. — Porque você teria cantado diferente. — Talvez essa fosse a escolha correta. Hartman olhou para ele com paciência irritante.

— A tomada é excelente porque você não tentou performar. Havia resistência nela. Exaustão. Contenção. Tudo que a faixa precisava. — Você está falando da minha vida. — Estou falando da sua interpretação. — Não separa. Hartman ficou quieto.

Pela primeira vez, Jhon viu algo parecido com satisfação discreta no rosto dele. — Essa frase também é nova. Jhon apoiou as mãos na mesa. — Para de falar como se eu fosse uma versão sendo atualizada. O silêncio que veio depois foi diferente de todos os anteriores. Mais fundo. Hartman não respondeu imediatamente. Quando respondeu, sua voz veio quase baixa. — Todos somos atualizados pelo que nos acontece. — Não foi isso que eu disse. — Eu sei. Hartman levantou-se. — Vá para casa, Jhon. Você precisa descansar. — Não me diga do que eu preciso. — Alguém precisa. Jhon saiu. No elevador, sentiu a respiração curta. Não era pânico. Não exatamente.

Era como se muitas frases estivessem tentando ocupar o mesmo espaço dentro dele. No térreo, a porta giratória o devolveu à chuva. Ashford brilhava como se nada tivesse acontecido. Sara estava sentada no chão do apartamento quando ele chegou. A porta estava destrancada. Isso o assustou. — Sara? Ela não respondeu de imediato.

Estava perto da estante, cercada por papéis. Fotografias antigas, cartas, documentos da mãe, receitas médicas, cartões de aniversário, anotações soltas. Tinha o rosto molhado, mas não parecia chorar naquele momento. Parecia ter chorado antes e continuado por inércia. — A porta estava aberta — Jhon disse. — Eu esqueci. Ele entrou e fechou. — O que aconteceu?

Sara segurava uma fotografia da mãe jovem, em um lugar que Jhon não reconheceu. Havia sol na foto. Sol de verdade. A imagem parecia quase estrangeira dentro daquele apartamento.

— Eu comecei a guardar as coisas dela — Sara disse. — Aí percebi que guardar é uma palavra idiota. Jhon sentou-se no chão, a uma distância cuidadosa. — Por quê?

— Porque parece que você está protegendo alguma coisa. Mas na verdade está escolhendo onde a ausência vai ficar. Ele olhou para os papéis. — Quer ajuda? Sara riu, mas o som quebrou no meio. — Quero. Não quero. Não sei. — Tudo bem. — Não está tudo bem. — Eu sei. Ela levantou os olhos. — Sabe? Dessa vez, a palavra não veio como crítica. Veio como pedido. Jhon respirou. — Não do jeito que você sabe. Sara olhou para ele por tempo demais. Então começou a chorar. Não havia beleza no choro. Havia exaustão. Jhon se aproximou. Ela não recuou.

Ele a abraçou no chão, no meio dos papéis, das fotos, das coisas que pertenciam a uma pessoa que não voltaria para buscá-las. Sara segurou a camiseta dele com força, como se o corpo dele fosse borda.

— Eu não quero morrer — ela disse, tão baixo que ele quase não ouviu. Jhon congelou. Sara sentiu.

— Não assim. Eu só… — Ela respirou com dificuldade. — Eu só queria parar. Só por um pouco. Parar de acordar dentro disso. Jhon fechou os olhos. Não havia frase certa. Qualquer frase poderia quebrar. Então ele disse a única verdade que conseguiu encontrar: — Eu fico com você agora. Sara chorou mais. — Só agora? Ele sentiu o golpe. — Agora é o que eu consigo segurar sem mentir. Ela continuou chorando. Depois de um tempo, disse: — Então segura agora. Ele segurou. Naquela madrugada, Jhon não dormiu.

Sara adormeceu no chão mesmo, exausta, a cabeça apoiada em uma almofada que ele trouxe do sofá. Ele permaneceu sentado ao lado dela, olhando para a janela sem vista e para os papéis espalhados.

Em um dos documentos, havia a caligrafia da mãe de Sara. Uma lista de compras. Tomates. Café. Sabão. Pão. Coisas pequenas, absurdamente vivas. Em uma fotografia, Sara adolescente fazia careta para a câmera. Em outra, a mãe dela segurava um guarda-chuva vermelho em uma rua que não parecia Veldmoor.

Jhon percebeu que conhecia muito pouco da vida de Sara antes dele.

E, ainda assim, ela havia se tornado a pessoa que mais alterava tudo dentro dele. A frase dela continuava ecoando. Eu não quero morrer. Eu só queria parar. Jhon olhou para ela dormindo. Sentiu medo. Não medo abstrato. Medo real, físico, tardio. O tipo de medo que deveria ter chegado antes.

No celular, havia onze notificações da Lutheryn. Ele não abriu nenhuma. Às quatro e vinte da manhã, escreveu no próprio caderno:

Room Without a View não é sobre estar sozinho. É sobre ninguém conseguir entrar onde você está preso. Ficou olhando para a frase. Depois acrescentou: Preciso encontrar uma janela. Não riscou. No dia seguinte, Veldmoor amanheceu sem sol.

O véu cinza parecia mais baixo, quase apoiado nos telhados de Greyline. A cidade inteira tinha a cor de uma coisa que não secou. Sara ainda dormia quando Jhon levantou. Fez café. Dessa vez, deixou a xícara perto dela e não lavou as outras. Não organizou os papéis. Não mexeu nas plantas. Não abriu as janelas. Não tentou apagar a forma do colapso. Sentou-se à mesa e esperou. Quando Sara acordou, viu tudo ainda fora do lugar. Viu Jhon sentado. Viu a xícara. Por um instante, ele achou que ela ficaria irritada. Mas Sara apenas olhou ao redor, depois para ele. — Você não arrumou. — Não. — Por quê? Jhon pensou. — Porque ainda é seu. Sara fechou os olhos. Uma lágrima escorreu. Não parecia tristeza pura. Parecia alívio pequeno demais para carregar esse nome. — Obrigada — ela disse. Jhon assentiu. Ficaram em silêncio. Do lado de fora, a chuva começou de novo. Ou continuou. Em Veldmoor, era difícil saber.

Naquela manhã, antes de ir embora, Sara tocou a scar mark no antebraço dele. — Talvez um dia eu faça uma também. Jhon olhou para ela. — Por quê? Sara passou o dedo perto da marca, sem pressionar.

— Para lembrar que algumas coisas ficam, mesmo quando a gente não sabe ficar. Ele sentiu vontade de dizer que ela ficaria. Não disse.

Aprendia, devagar, que algumas promessas eram cruéis quando feitas por medo. Então apenas colocou a mão sobre a dela.

E, por alguns segundos, o quarto sem vista pareceu ter uma janela pequena. Não para fora. Para eles.

Na Lutheryn Labs, no fim daquela tarde, Room Without a View foi aprovada. Hartman ouviu a versão final sem expressão. Clara permaneceu quieta.

Ravi disse que a guitarra soava “como uma lâmpada acesa em um quarto onde ninguém quer entrar”. Ninguém entendeu se aquilo era elogio, mas ele disse que era.

Jhon escutou a própria voz na faixa e sentiu uma estranheza difícil de nomear. Não parecia performance. Parecia escuta.

Como se a música tivesse ficado tempo demais do lado de fora de uma porta fechada e aprendido a cantar dali. Quando acabou, ninguém falou por alguns segundos. Hartman foi o primeiro. — Agora temos a próxima etapa. Jhon não perguntou qual. No fundo, já sabia.

Depois de uma música sobre um quarto sem vista, a Lutheryn não procuraria cura.

Procuraria o que acontecia quando alguém parava de procurar saída. Na tela, uma pasta nova apareceu entre os arquivos do ciclo. Ainda bloqueada. Sem demo. Sem letra. Apenas um título provisório: BRIDGE_EVENT / restricted Jhon viu. Piscou. A pasta desapareceu. — Problema? — Hartman perguntou. Jhon olhou para a tela vazia. — Não.

Mas, naquele instante, em algum lugar muito baixo dentro dele, uma parte que ainda não tinha nome sentiu frio. Não o frio comum da Lutheryn Labs. Outro.

Como se uma janela tivesse sido aberta para um lugar onde a chuva já esperava.