Capítulo 16

Peace Inside the Noise

16 min3.514 palavras
Abertura do capítulo 16 — Peace Inside the Noise

A paz não chegou como silêncio.

Jhon havia passado tempo demais confundindo uma coisa com a outra.

Silêncio era o que existia no apartamento quando ele evitava tocar guitarra. Silêncio era o espaço depois que uma notificação desaparecia.

Silêncio era Hartman escolhendo palavras antes de dizer uma verdade pela metade.

Silêncio era a sala da Lutheryn Labs antes de uma música transformar dor em procedimento. Silêncio era a ponte depois que tudo já havia acontecido. Paz era diferente. Paz fazia barulho.

Era o som da água batendo na janela enquanto ele lavava uma xícara sem transformar o gesto em ritual. Era Ravi desafinando de propósito e depois jurando que fazia parte de uma estética. Era Clara discutindo com um cabo de áudio como se o cabo tivesse responsabilidade ética. Era a porta do The Hollow Note rangendo quando alguém entrava molhado. Era uma banda ruim tentando uma música boa. Era o metrô passando longe. Era o café borbulhando. Era a cidade insistindo. A paz, descobriu, talvez fosse isso:

não a ausência de ruído, mas a possibilidade de não obedecer a todos eles.

Depois da carta de Sara, Jhon ficou três dias sem escrever música. Não por bloqueio. Por respeito.

Havia uma diferença entre calar porque algo foi arrancado e calar porque algo precisava assentar. Ele não sabia se estava fazendo certo. Provavelmente não. Mas, pela primeira vez, a dúvida não exigia resposta imediata. A carta ficou dentro do caderno. Ele a leu muitas vezes no primeiro dia. Menos no segundo. No terceiro, abriu apenas uma vez, na parte que dizia:

Viva alguma coisa que não seja só consequência da minha ausência. Isso não me apaga. Prometo. Leu em voz baixa. Depois fechou. Não porque doesse menos.

Porque começava a acreditar que talvez a frase não dependesse de repetição para continuar verdadeira.

A saída oficial da Lutheryn aconteceu numa manhã sem chuva forte. Isso pareceu inadequado.

Jhon esperava tempestade, céu desabando, ruas alagadas, algum tipo de coerência dramática. Mas Veldmoor ofereceu apenas garoa fina e persistente, o tipo de chuva que não fazia barulho suficiente para protagonizar nada. Ashford brilhava como sempre.

A torre da Lutheryn Labs permanecia impecável, refletindo nuvens baixas e pessoas apressadas. Não parecia culpada. Prédios raramente pareciam culpados. Talvez por isso fossem tão úteis para esconder coisas. Jhon entrou pela porta principal. Dessa vez, com crachá temporário.

A recepção entregou a ele em um envelope branco, com nome impresso e autorização de visitante. Visitante. A palavra quase o fez rir. Havia sido funcionário, vocalista, sujeito de teste, produto, prova, falha e escândalo. Agora era visitante. Talvez fosse progresso. Subiu ao décimo segundo andar.

O elevador abriu para o mesmo corredor frio. As mesmas luzes. O mesmo vidro. A mesma beleza calculada. Mas algo havia mudado nele. Antes, o lugar parecia inevitável. Agora parecia apenas um lugar. Perigoso, sim. Cheio de ecos, sim. Mas não infinito. Ravi já havia retirado suas coisas da mesa. O espaço vazio era o único ponto honesto da área de produção.

Clara também não estava mais ali. Seu monitor havia sido removido. A cadeira, ocupada por outra pessoa que digitava com fones enormes e expressão assustada de funcionário novo. Jhon sentiu pena dele por um instante. Depois lembrou que pena não substituía aviso. Hartman o esperava na sala. Desta vez, sentado.

Sobre a mesa havia uma pasta física e um pequeno dispositivo de armazenamento. Nada de tablet ligado. Nada de parede com gráficos. Nada de música pronta para manipular o ar. — Jhon — disse Hartman. — Hartman. Sentaram-se. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Do lado de fora, a garoa desenhava linhas quase invisíveis no vidro. Hartman empurrou a pasta na direção dele.

— Documentos de desligamento. Direitos de uso de imagem suspensos. Voz retirada dos próximos materiais oficiais. A banda continuará apenas com repertório anterior autorizado até reorganização contratual. — E as músicas?

— As lançadas permanecem no catálogo, com sua participação creditada. Você mantém os direitos de intérprete conforme contrato. Jhon olhou para a pasta.

— O contrato que eu assinei sabendo quem eu era ou o que vocês me disseram que eu era? Hartman aceitou a pergunta. — Juridicamente, isso ainda será discutido. — Não perguntei juridicamente. — Então moralmente: não há resposta limpa. — Nunca tem. — Não.

Jhon abriu a pasta, folheou sem ler tudo. Assinaturas, termos, datas, cláusulas, anexos. A vida administrativa tentando colocar ponto final em algo que não cabia em parágrafo. — E a linha Lutheryn? Hartman colocou o dispositivo sobre a mesa.

— Cópia isolada dos registros de L-01 a L-06. Sem uso comercial. Sem acesso de produção. Clara tem outra cópia. Uma terceira foi deixada em Saint Oran. Jhon olhou para ele. — Você deixou? — Sim. — Por quê? Hartman demorou. — Porque arquivos não são túmulos suficientes. A frase não parecia ensaiada. Isso a tornava mais difícil. — E Sol? — Jhon perguntou. Hartman baixou os olhos. — Ainda estou procurando. — Não procurando frequência. Nome. — Eu sei. Silêncio. Jhon assinou os papéis necessários. A caneta parecia leve demais para o tamanho do gesto. Quando terminou, Hartman não recolheu imediatamente. — Você sabe que sair daqui não encerra sua instabilidade. — Sei. — Os episódios podem continuar. — Sei. — A Lutheryn tinha recursos para monitorar… — Não. Hartman parou. Jhon olhou para ele. — Não termina essa frase. Hartman assentiu. — Certo. Outra pausa. — O que vai fazer? — Hartman perguntou. Jhon pensou em responder “não sei”. Seria verdade. Mas não toda. — Tocar. Hartman quase sorriu. Não por deboche. Por tristeza. — Onde? — Onde música não precise virar relatório. — Isso é quase nenhum lugar. — Então começo pequeno. Hartman recolheu os papéis. — Sara gostaria disso. O nome dela veio sem cálculo. Jhon sentiu. Ainda doeu. Mas não como invasão. — Não usa ela para aprovar minhas escolhas. Hartman fechou os olhos por um instante. — Desculpe. A palavra saiu baixa. Tardia. Insuficiente. Ainda assim, existiu. Jhon levantou. Na porta, parou.

— Você me perguntou uma vez por que algumas músicas continuam depois que acabam. Hartman olhou para ele. — Sim. — Não é porque foram bem feitas. Hartman ficou quieto.

— É porque alguém continua carregando sem transformar em propriedade. Saiu antes que Hartman respondesse.

Dessa vez, ao atravessar o corredor da Lutheryn Labs, Jhon não ouviu música. Ouviu apenas máquinas. E isso ajudou.

O primeiro show sem a Lutheryn aconteceu em um lugar que não tinha palco.

Era um café pequeno em Greyline, perto da livraria onde Sara costumava aparecer com livros que dizia não precisar comprar. O dono afastou duas mesas, desligou parte das luzes e colocou uma caixa de som emprestada em cima de um banco. Havia espaço para vinte pessoas sentadas, talvez trinta se ninguém se importasse com desconforto. Ravi trouxe o baixo.

— Tecnicamente, isso é um show ou uma reunião de condomínio triste? — perguntou, olhando ao redor. — Depende da afinação — Jhon respondeu. Ravi apontou para ele. — Essa foi quase uma piada. Estou vendo crescimento.

Clara chegou com cabos, um gravador analógico e a expressão de quem ainda confiava menos em equipamentos do que em pessoas, o que talvez fosse saudável. — Sem rede — ela disse.

— Sem rede — Ravi repetiu. — Metaforicamente e tecnicamente. Perfeito para ansiedade. Jhon colocou a guitarra no colo. Não havia jaqueta da Lutheryn.

Usava a jaqueta remendada, com a cicatriz torta nas costas. A scar mark do antebraço estava visível quando arregaçou a manga. Algumas pessoas olharam. Ninguém perguntou. O público era pequeno.

Elias Oran veio da igreja. Elias do The Hollow Note também apareceu, o que criou uma confusão breve e uma piada inevitável de Ravi sobre “os Elias do multiverso da tristeza”. Clara sorriu apesar de si mesma. Havia músicos de Greyline, alguns rostos conhecidos dos vazamentos, duas pessoas que Jhon não reconhecia mas que seguravam café como quem segura algo para não tremer. A mesa da frente ficou vazia por alguns minutos. Jhon olhou para ela mais vezes do que queria. Depois uma mulher desconhecida sentou ali com um caderno. Não era Sara. Claro que não. Jhon sentiu o golpe pequeno da expectativa quebrada. Depois deixou a mulher ser apenas uma mulher com caderno. Isso também era trabalho. Começou sem discurso.

Tocou uma música antiga, anterior à Lutheryn, ou que ele acreditava ser. Talvez fosse memória implantada. Talvez não. A diferença importava menos agora. Se uma música o acompanhara tempo suficiente para ganhar marcas novas, talvez também tivesse sido transformada pelo caminho. A voz saiu baixa no início. Depois encontrou espaço.

Ravi entrou com cuidado, sem piada. Clara ajustou o gravador. O café ficou silencioso do jeito que lugares pequenos ficam quando todo mundo percebe que fazer barulho seria invasão. Jhon tocou Before I Was Real. Hesitou antes.

A música carregava peso demais. Tinha sido a porta de Sara, a porta da Lutheryn, a primeira pista do que ele era. Poderia nunca mais cantá-la. Teria direito.

Mas, quando tocou o primeiro acorde, percebeu que a canção não pertencia só à empresa. Nem só ao começo da dor. Pertencia também ao instante em que Sara o ouviu e ficou. Pertencia à frase dela. Pertencia ao bar. Pertencia a algo que a Lutheryn tentou medir e não conseguiu possuir inteiro. Cantou diferente. Menos como descoberta.

Mais como alguém olhando para uma descoberta antiga e aceitando que ela ainda muda. No refrão, não abriu a voz como antes. Deixou menor. Mais próximo. Before I was real… Não terminou igual à versão da Lutheryn. No último verso, parou antes da repetição final. Deixou a guitarra sustentar o espaço.

E, pela primeira vez, a música não pareceu pedir que Sara aparecesse. Pareceu agradecer por ela ter aparecido uma vez. Depois tocou Machine of Me. Essa ninguém conhecia.

Ravi acompanhou com o baixo quase sussurrado. A letra veio frágil, sem tentativa de transformar escolha em heroísmo. Machine of me Don’t take the wound away If all I am is what remains Let it remain Algumas pessoas baixaram os olhos. Outras fecharam. A mulher do caderno escreveu. Jhon viu. Não doeu da mesma forma. Depois tocou uma melodia sem letra. Aquela que havia cantarolado para Sara no quarto sem vista. Não anunciou. Não explicou. Apenas tocou.

No meio da música, Veldmoor fez seu ruído: uma moto passou, alguém derrubou uma colher, a máquina de café soltou vapor, a chuva bateu mais forte por alguns segundos. Antes, Jhon teria se irritado. Agora, deixou entrar. A paz dentro do ruído não era controlar o som. Era permitir que a vida desafinasse sem destruir a música. Depois do show, algumas pessoas vieram falar com ele. Não muitas.

Uma mulher disse que Machine of Me parecia uma carta para alguém que ainda estava dentro da sala. Um rapaz perguntou se Defect in the Code seria lançada oficialmente. Elias do bar reclamou que o café tinha acústica ruim. Elias Oran acendeu um cigarro do lado de fora e disse apenas: — Menos fantasma hoje. Jhon respondeu: — Sim. — Isso assusta? — Sim. O velho assentiu. — Bom. Jhon quase sorriu.

Ravi ficou conversando com dois músicos sobre equipamento barato. Clara guardava os cabos com uma concentração que talvez fosse apenas forma de ficar. A mulher do caderno aproximou-se por último. — Posso? — perguntou, apontando para a cadeira ao lado. Jhon assentiu. Ela se sentou.

Devia ter pouco mais de quarenta anos, cabelo curto, olheiras fundas, casaco verde escuro. O caderno no colo estava cheio de anotações. — Você conheceu Sara — ela disse. Não era pergunta. Jhon ficou atento. — Sim. — Eu trabalhava com ela. Na editora. O ar mudou. — Você é… — Helena.

O nome apareceu de algum lugar vago. Sara mencionara uma Helena algumas vezes. Uma pessoa que revisava com crueldade elegante. Uma amiga de trabalho. Talvez amiga de vida também, embora Sara fosse econômica com essa palavra. — Ela falava de você — Helena disse. Jhon não soube se queria ouvir. Helena percebeu. — Não muito. Sara não entregava pessoas com facilidade. — Não.

— Mas falou o suficiente para eu saber que você existia antes de virar manchete estranha. Jhon olhou para a xícara vazia. — Sinto muito. Helena balançou a cabeça. — Eu também. Mas não vim trocar frases de velório. Algo em seu tom lembrava Sara. Não na voz. Na precisão. — Vim devolver uma coisa. Ela abriu o caderno e retirou uma folha dobrada.

— Ela deixou algumas anotações comigo. Coisas que talvez virassem texto. Ou não. Sara tinha esse hábito irritante de escrever como se o mundo fosse adivinhar o destino das páginas. Jhon pegou a folha com cuidado. — Posso ler? — É sua, eu acho. Ele abriu. A letra de Sara. Não carta. Fragmento.

Jhon acha que música precisa ser executada. Ainda não entendeu que algumas músicas precisam ser habitadas. Talvez ninguém tenha ensinado. Talvez ele tenha sido treinado demais para entregar e pouco para permanecer. Mas há momentos em que ele permanece. São pequenos, quase desajeitados. Quando acontecem, o mundo parece menos mecânico. Jhon parou. Helena não desviou o olhar. — Ela escreveu isso antes da mãe morrer. O detalhe doeu. Sara vira antes de toda a queda. Antes do quarto sem vista fechar de vez. Antes da ponte. — Obrigado — Jhon disse. A palavra pareceu pequena. Helena fechou o caderno.

— Ela também escreveu que você era “um desastre tentando virar abrigo”. Jhon riu baixo, com os olhos molhados. — Parece ela. — Infelizmente, sim. Helena levantou-se.

— Não transforme ela só em santa triste. Sara era insuportável quando queria estar certa. — Eu sei. — Ótimo. Lembra disso também. Ela foi embora antes que a conversa virasse emoção explícita. Sara teria aprovado. Os shows pequenos continuaram. Não como turnê. Não como projeto. Como tentativa. Um café em Greyline. Uma livraria no Mist Quarter. Um galpão emprestado perto do Rio Vel. Uma noite no The Hollow Note sem anúncio.

Uma apresentação acústica em Saint Oran para quinze pessoas e muitas velas. Ravi tocava em quase todos, reclamando em todos.

Clara cuidava de gravações analógicas, distribuição independente e proteção contra interferência da Lutheryn com uma ferocidade que assustava pessoas que tentavam apenas vender ingressos. Jhon cantava menos do que antes. Mas quando cantava, habitava.

Não sempre. Havia noites ruins. Noites em que a voz falhava de verdade. Noites em que a lembrança de Sara vinha pesada demais. Noites em que alguém pedia Ghost of You e ele dizia não. Noites em que sonhava com salas cinza e acordava sem saber se estava em casa ou em algum arquivo de base. Mas também havia noites boas. Não felizes. Boas.

Havia uma noite em que uma mulher chorou durante Machine of Me e depois disse que não sabia por quê. Havia uma noite em que Ravi errou a entrada, riu e transformou o erro em parte da música. Havia uma noite em que Clara esqueceu de gravar e, quando pediu desculpas, Jhon disse que tudo bem, porque nem tudo precisava virar registro.

Ela ficou olhando para ele como se ele tivesse acabado de operar um milagre pequeno. — Repete isso — Ravi disse. — Nem tudo precisa virar registro. Ravi fingiu chorar. — Ele cresce tão rápido. Em outra noite, Jhon tocou Defect in the Code sem raiva. Não sem força. Sem raiva como motor principal.

A música continuou quebrada, mas agora havia espaço nela para outra coisa. Não perdão. Não reconciliação. Talvez direção. O vídeo dessa versão também vazou. A Lutheryn não conseguiu derrubar todos. Dessa vez, Jhon não se importou tanto. Hartman apareceu em Saint Oran no fim de uma apresentação.

Ficou no fundo da igreja, quase escondido pela sombra de uma coluna. Não se aproximou enquanto havia pessoas. Ouviu tudo. Não aplaudiu. Também não foi embora. Jhon o viu. Ravi também. — Quer que eu derrube ele com um pedestal de vela? — sussurrou. — Não. — Só para eu saber, isso é uma opção ética em algum cenário? — Não hoje. — Crescimento.

Depois que o público saiu, Hartman aproximou-se do altar lateral, onde o gravador com as vozes interrompidas permanecia guardado em uma caixa de madeira. Elias Oran ficou perto, observando. — Vim deixar uma coisa — Hartman disse. Jhon não respondeu. Hartman colocou uma folha dobrada sobre a caixa. — L-01. Jhon olhou para o papel. Não tocou. — Encontrou? — Não um nome completo. — Sol? Hartman assentiu. — Sol. E mais uma coisa. Abriu a folha.

Havia uma partitura pequena. Uma sequência de notas simples, repetida em baixa frequência. Clara, que estava próxima, aproximou-se para ver. — Isso é dele?

— Era o padrão que repetia sem comando. Achávamos que era falha motora vocal. Pode ter sido. Hartman respirou. — Ou pode ter sido tentativa. Elias Oran pegou a folha com delicadeza. — Tentativa de quê? Hartman olhou para Jhon. — Permanecer. Jhon fechou os olhos por um segundo. Sol. Uma nota. Um nome incompleto. Uma tentativa. — Então toca — Jhon disse. Hartman pareceu não entender. — Eu? — Você trouxe. — Eu não… — Toca.

O velho Elias entregou a folha a Hartman e apontou para o piano velho. — Ele ainda funciona mal. O que talvez seja apropriado. Hartman hesitou.

Pela primeira vez, Jhon o viu sem domínio do próprio corpo. Não era medo de público. Era medo de gesto. De transformar aquilo em algo real demais para caber na categoria de arquivo. Mas foi. Sentou-se ao piano. Tocou a primeira nota. Sol. O som saiu desafinado, frágil. Tocou a sequência inteira. Poucas notas. Nada grandioso. Nada capaz de reparar o que havia sido feito.

Mas, enquanto a melodia mínima preenchia Saint Oran, Jhon sentiu que talvez aquele primeiro modelo, aquela primeira falha, aquele primeiro quase-alguém, recebia ao menos uma coisa que a Lutheryn nunca lhe dera: uma escuta sem utilidade. Quando Hartman terminou, ninguém falou. Elias Oran acendeu uma vela. — Para Sol — disse. Jhon repetiu: — Para Sol. Clara: — Para Sol. Ravi, baixo: — Para Sol. Hartman não falou. Mas ficou. Às vezes, talvez, ficar fosse a única oração que restava. A paz veio em pedaços. Nunca inteira.

Uma manhã em que Jhon acordou e não pensou em L-07 antes do próprio nome.

Uma tarde em que tocou guitarra apenas por prazer de sentir cordas sob os dedos.

Uma noite em que sonhou com Sara e, no sonho, ela estava lendo em silêncio, sem mensagem, sem aviso, sem tragédia. Apenas ali. Ao acordar, chorou. Mas não teve medo. Um dia em que choveu e ele não odiou a chuva. Outro em que odiou. Ambos contavam. Começou a escrever músicas que não eram capítulos da Lutheryn. Algumas ruins. Isso o alegrou de maneira estranha.

Músicas ruins eram liberdade. A Lutheryn jamais permitia uma música ruim nascer sem transformá-la em potencial, revisão, experimento. Jhon deixou algumas morrerem no caderno. Não por fracasso. Por direito. Uma delas tinha apenas dois versos: A cidade ainda cai sobre mim mas hoje eu não caio junto Ravi disse que era bom. Jhon disse que era incompleto. Clara disse que ambas as coisas podiam ser verdade. Todos ficaram em silêncio depois. Sara teria gostado. Ou revirado os olhos. Talvez os dois. No fim daquele mês, Jhon voltou à Veldt Bridge. Sozinho. Não à noite. Ao entardecer.

O céu estava cinza, claro apenas o suficiente para mostrar que o dia existira. A chuva vinha fina, inclinada pelo vento. O Rio Vel corria escuro abaixo, como sempre. A ponte mantinha suas flores, bilhetes antigos, fitas desbotadas e marcas de ferrugem. Algumas velas apagadas ainda ficavam perto da grade. Jhon caminhou até o meio. Não viu o guarda-chuva preto. Não viu o caderno molhado. Não viu Sara. Viu a ponte. Ferro. Água. Altura. Frio. Lugar. Apenas lugar. Isso foi quase insuportável. Encostou a mão na grade. — Eu não vim te devolver nada — disse. A voz saiu baixa. A chuva continuou. — Também não vim pedir para você aparecer. Respirou.

— Eu só… toquei hoje. Em um lugar pequeno. Você teria odiado a iluminação. O vento passou. Jhon quase sorriu. — A música ficou torta. Melhor assim. A scar mark no braço estava descoberta. A tatuagem de Sara não estava ali para responder. Mas a dele estava. E isso bastava para lembrar. — Eu li sua carta. A frase fez a garganta apertar. — Demorei, como você sabia. Silêncio.

— Estou tentando viver alguma coisa que não seja só consequência da sua ausência. Olhou para o rio. — É difícil. A chuva caiu mais forte por alguns segundos. — Mas hoje eu tentei. Não havia resposta. Nenhum reflexo vermelho. Nenhuma voz. Nenhuma aparição. Jhon ficou ali mesmo assim. Por muito tempo. Quando foi embora, não sentiu alívio. Mas sentiu que a ponte havia diminuído um pouco. Não em importância. Em poder. A cidade ainda era cinza. A chuva ainda continuava. A ausência ainda pesava.

Mas, dentro do ruído, havia pequenas áreas onde Jhon conseguia respirar sem pedir autorização a ninguém. Não era felicidade. Não era final. Era paz. Imperfeita. Interrompida. Viva. E, por enquanto, isso era música suficiente.