Capítulo 05
The Weight of Goodbye

O peso do adeus raramente chegava inteiro. Chegava em partes. Uma ligação não atendida. Uma cadeira vazia. Uma mensagem respondida tarde. Um corredor de hospital longo demais. Uma frase dita sem intenção de ferir e lembrada como ferida. No começo, Jhon não entendeu.
Sara começou a cancelar encontros com mais frequência. Depois parou de remarcar alguns. Não era distância afetiva, não exatamente. Era cansaço. O tipo de cansaço que não acaba depois de dormir, porque não nasce no corpo. A mãe dela piorava. Jhon sabia disso.
Sabia o nome do hospital. Sabia os horários prováveis das visitas. Sabia que os exames tinham mostrado algo que os médicos diziam com cuidado excessivo. Sabia que Sara odiava quando as pessoas falavam “seja forte” como se força fosse remédio. Sabia que ela esquecia de comer quando passava muitas horas no St. Elian. Sabia que, quando ela respondia apenas “tudo bem”, quase sempre não estava tudo bem. Ele sabia muitas coisas. Ainda assim, sabia pouco. Porque saber os dados de uma dor não era o mesmo que conhecê-la. A Lutheryn Labs, enquanto isso, avançava.
Before I Was Real havia passado do pré-teste ao lançamento restrito. A música crescia em silêncio, como se encontrasse as pessoas pelos cantos da cidade. Trechos apareciam em vídeos curtos, em mensagens, em comentários de madrugada. O título circulava com uma velocidade que deixava o marketing satisfeito e Hartman quieto demais. A banda ensaiava novas variações. O ciclo precisava continuar. Jhon recebia arquivos, estudava, tocava, cantava, ajustava. E, cada vez mais, saía de algum lugar tarde demais. Na primeira vez, foi uma consulta.
Sara havia pedido que ele a encontrasse no hospital às dezoito. Não disse “preciso de você”. Disse apenas: Vai ser rápido. Talvez eu queira caminhar depois. Jhon entendeu como convite. Não como pedido.
Às dezessete e quarenta, Hartman entrou na área de produção e pediu uma revisão urgente do relatório de resposta vocal. Havia inconsistências nos dados de Before I Was Real. A faixa gerava identificação acima do previsto em perfis que o modelo não esperava. Hartman queria a leitura de Jhon. — Agora? — Jhon perguntou. — Agora. Ele olhou para o celular. 17:42. — Tenho um compromisso. Hartman não se irritou. Isso teria sido mais simples. — Quanto tempo? — Dezoito horas. — A revisão leva quinze minutos. Levou quarenta e sete.
Quando Jhon chegou ao hospital, Sara estava na calçada, sob a marquise, segurando o casaco fechado contra o corpo. A chuva caía além dela como uma parede fina. — Desculpa — ele disse, antes de estar perto. Sara olhou para ele. Não parecia surpresa. Isso doeu mais do que raiva. — Tudo bem. — A reunião demorou. — Eu imaginei. — Como foi? Ela soltou uma risada curta, sem humor. — Foi. Jhon procurou outra pergunta. Qualquer pergunta. — Quer caminhar? — Não hoje. — Eu posso ficar. — Agora? Ele ficou em silêncio. Sara desviou o olhar para a rua. — Desculpa — ele repetiu. — Eu sei. — Isso ajuda? — Nem sempre. Ela foi embora de táxi.
Jhon ficou na calçada, sem saber se deveria ter insistido, pedido para entrar junto, abraçado, explicado, calado. O hospital continuou atrás dele, iluminado e indiferente. Na segunda vez, ele quase acertou. A mãe de Sara foi internada numa quarta-feira. Jhon estava no estúdio quando recebeu a mensagem. Ela piorou. Estou indo para o St. Elian. Ele respondeu imediatamente: Estou indo. E foi. Ou tentou. No caminho para a saída, Hartman o chamou. — Jhon. Uma palavra apenas.
Mas o modo como Hartman dizia seu nome às vezes parecia uma porta se fechando. — Não agora — Jhon disse. Hartman ficou parado no corredor.
— O novo arranjo precisa da sua aprovação antes de seguir para a banda. — Clara pode revisar. — Não a interpretação vocal. — Ravi pode segurar até amanhã. — Não é sobre música. Jhon parou. Hartman caminhou até ele com calma.
— A resposta emocional da faixa está criando um desvio. O público está associando a música a experiências de reconhecimento pessoal, não apenas vínculo romântico. Isso altera o ciclo. Precisamos entender por que sua interpretação está deslocando o eixo. — Minha interpretação? — Sim. — Isso pode esperar. — Pode? O celular vibrou na mão de Jhon. Sara. Ele olhou. Entraram com ela. Eu estou sozinha aqui. O corredor pareceu estreitar. — Eu preciso ir — Jhon disse. Hartman olhou para o celular, depois para ele. — Vá. A autorização veio tarde o bastante para parecer controle. Jhon foi. Chegou ao hospital quarenta minutos depois.
Sara estava sentada em uma sala de espera, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos unidas diante da boca. O cabelo caía sobre o rosto. Havia um copo plástico de água no chão, intocado. Quando ela o viu, não levantou. Jhon sentou-se ao lado dela. — Eu vim o mais rápido que consegui. Sara assentiu. — Eu sei. Silêncio. — O médico falou alguma coisa? Ela respirou fundo. — Falou várias. — O quê?
— Coisas que parecem menos terríveis quando vêm com palavras técnicas.
Jhon quis perguntar quais palavras. Quis organizar. Quis entender. Quis montar uma sequência lógica: diagnóstico, prognóstico, tratamento, próximos passos. Mas a mão de Sara estava tremendo. Então ele fez o que ela havia ensinado. Ficou. Por alguns minutos, foi suficiente. Depois o celular dele vibrou. Uma vez. Duas. Três. Ele não olhou. Sara olhou por ele. — Pode atender. — Não. — Pode. — Sara.
— Se você não atender, vai ficar aqui pensando que deveria. Se atender, vai ficar aqui pensando que não deveria. Eu já conheço esse labirinto. Jhon desligou o celular. Ela observou o gesto. — Isso era para parecer escolha? — Era escolha. — Ou culpa? Ele não respondeu. Sara encostou a cabeça na parede atrás dela. — Eu estou cansada, Jhon. — Eu sei. — Não. Você sabe a frase. Não sabe o lugar. Aquilo o atravessou sem ruído.
A porta da sala se abriu. Uma enfermeira chamou o nome da mãe de Sara. Ela levantou imediatamente. Jhon levantou junto. Sara olhou para ele. — Eu vou entrar. — Eu vou com você. Ela hesitou. Por um momento, ele achou que diria não. Mas ela assentiu. Entraram.
Jhon ficou ao lado dela no quarto, perto da cama, enquanto a mãe de Sara dormia com o rosto menor do que deveria. Máquinas faziam sons baixos. O cheiro de antisséptico parecia querer apagar qualquer coisa humana do ambiente. Sara segurou a mão da mãe. Jhon ficou ao lado. Sem relatório. Sem solução. Sem frase. Só presença.
Naquela noite, quando saíram do hospital, Sara encostou a cabeça no ombro dele dentro do táxi. — Hoje você ficou — disse. Jhon olhou para a cidade pela janela. — Sim. Mas a palavra não trouxe alívio.
Porque ele sentia, sem saber explicar, que havia algo cruel em ser elogiado por fazer o mínimo. O amor deles começou a mudar de temperatura. Não acabou. Isso teria sido mais limpo.
O que aconteceu foi pior: continuou existindo, mas agora carregava coisas demais.
Jhon ainda fazia café para Sara quando ela ia ao apartamento dele. Ainda deixava a manta cinza no sofá antes que ela pedisse. Ainda andava pelo lado de fora da calçada quando a chuva vinha inclinada. Ainda tocava pequenos trechos de música quando ela não conseguia dormir.
Sara ainda encostava a cabeça no ombro dele. Ainda escrevia frases em guardanapos. Ainda chamava a scar mark de ferida. Ainda sorria de lado quando ele tentava entender uma piada um segundo depois de todo mundo. Mas havia um espaço novo entre uma coisa e outra. Um atraso. Nem sempre de tempo. Às vezes, de alma. Na Lutheryn, o ciclo entrava na próxima fase.
O título apareceu numa reunião de quinta-feira, projetado na parede branca da sala ECHO: Jhon sentiu uma rejeição física. Não pela música, que ainda não havia ouvido. Pelo nome. O peso do adeus. A sala era fria demais para aquela frase.
Hartman estava à frente da mesa. Clara à direita, com um tablet nas mãos. Ravi ao fundo, mexendo em uma caneta como se quisesse quebrá-la. Dois produtores, uma analista de comportamento e a mulher do marketing completavam o grupo.
— O vínculo foi estabelecido — Hartman disse. — Agora precisamos observar tensão. Jhon olhou para a tela. — Tensão.
— Ruptura iminente — explicou a analista. — Não perda consumada. O estágio anterior. Quando o público percebe que algo está escapando, mas ainda tenta manter. Ravi murmurou: — Vocês conseguem deixar até sofrimento com cara de manual. Ninguém respondeu. Hartman tocou no tablet. A demo começou.
Guitarra contida. Bateria lenta. Uma melodia que parecia carregar algo pelos ombros. A voz guia era limpa demais, quase cruel por não tremer. A letra falava de uma porta que permanecia aberta até o dia em que alguém percebe que ninguém mais entraria por ela. Falava de mãos que se soltavam não por falta de amor, mas por peso acumulado. Falava de chegar ao lugar certo com minutos de atraso e descobrir que alguns minutos bastam para separar uma vida da outra. Jhon levantou-se antes do fim. — Não. Todos olharam. Hartman não. Ele apenas pausou a faixa. — Não? — Não vou cantar isso. O silêncio ficou absoluto. Ravi parou de mexer na caneta. Clara olhou para Jhon como se tentasse avisá-lo sem dizer nada. Hartman apoiou as mãos na mesa. — Podemos conversar em particular. — Não. A palavra saiu mais baixa do que ele pretendia. Mas saiu inteira. — Essa música não está pronta — Jhon disse. Um dos produtores se ajeitou na cadeira. — Tecnicamente, está. Jhon olhou para ele. — Então tecnicamente está errada. Hartman observou-o por alguns segundos. — O que nela te parece errado? Tudo. A palavra quase saiu.
Tudo nela parecia estar olhando para Sara. Para a calçada do hospital. Para a sala de espera. Para o copo de água no chão. Para as mensagens. Para todos os momentos em que ele chegou depois. Mas dizer isso seria abrir uma porta. — É cedo — Jhon disse. Hartman inclinou a cabeça. — Para quem? Jhon não respondeu.
E Hartman sorriu com uma tristeza falsa ou uma paciência verdadeira. Com ele, era difícil distinguir.
— Você não precisa cantar hoje. Mas precisa entender que a música não espera a nossa permissão para chegar. Jhon saiu antes da reunião terminar. Encontrou Sara naquela noite no apartamento dela.
Ela morava em uma rua estreita perto do limite entre Greyline e Mist Quarter, no segundo andar de um prédio antigo onde a escada cheirava a madeira molhada. O apartamento era menor que o dele, mas mais habitado. Havia livros empilhados, plantas que sobreviviam teimosamente à falta de sol, fotografias presas em uma parede, xícaras diferentes, papéis, uma manta azul no sofá. Aquela noite, quase tudo parecia fora de lugar. Não por bagunça. Por interrupção.
Sara abriu a porta usando uma camiseta velha e calça de moletom. O cabelo estava preso de qualquer jeito. O rosto sem maquiagem a fazia parecer mais jovem e mais cansada. — Você veio — ela disse. — Disse que vinha. — Às vezes as pessoas dizem. Ele não soube o que responder. Entrou.
O apartamento estava escuro, exceto por uma luminária pequena perto da janela. A janela dava para outro prédio, tão perto que quase parecia parede. Jhon entendeu, de imediato, por que ela odiava aquela vista. Sara voltou para o sofá. Ele sentou na poltrona à frente. Distância segura. Errada. — Você comeu? — ele perguntou. Sara sorriu sem humor. — Essa é sua primeira pergunta? — É uma pergunta importante. — É uma pergunta fácil. Jhon ficou quieto. — Desculpa — ela disse, fechando os olhos. — Eu estou horrível. — Você está cansada. — Estou mais que cansada. — Eu sei. Ela abriu os olhos. — Sabe? A palavra veio sem agressividade. Isso a tornou pior. Jhon se inclinou para frente. — Sei que você está passando por muita coisa. — Isso é diferente de saber. Ele olhou para as próprias mãos. Sara respirou fundo. — Desculpa. De novo. — Não precisa.
— Preciso sim. Dor não dá direito de transformar todo mundo em parede. Jhon olhou para ela. — Eu não sou parede. Sara riu baixo. Uma risada triste. — Não? A pergunta ficou. Ele quis negar.
Mas pensou no que ela havia dito semanas antes: você fica imóvel, como se esperasse uma legenda aparecer. Talvez ele fosse parede. Talvez só não soubesse. Levantou-se e sentou no sofá, ao lado dela. Sara não se moveu.
Jhon não tentou abraçá-la imediatamente. Apenas ficou perto o bastante para que ela pudesse escolher a distância. Depois de alguns minutos, ela apoiou a cabeça no ombro dele. — Melhor — murmurou. Ele olhou para a janela sem vista.
A chuva desenhava linhas no vidro, e o prédio em frente devolvia apenas escuridão. — Hoje me mostraram uma música nova — ele disse. Sara não levantou a cabeça. — Sobre o quê? Jhon demorou. — Despedida. Ela ficou imóvel por tempo demais. — A Lutheryn é sutil como um funeral com patrocínio. Ele quase sorriu. Quase. — Eu saí da reunião. — Por quê? — Não queria cantar. — Porque era ruim? — Porque era cedo. Sara respirou contra o ombro dele. — Cedo para quem? A mesma pergunta de Hartman. Mas, nela, a pergunta doía de outro jeito. Jhon não respondeu. Sara fechou os olhos. — Talvez esse seja o problema. — Qual?
— Você sempre sabe quando uma música chega cedo. Nunca quando você chega tarde. Ele sentiu o corpo inteiro endurecer. Sara percebeu. — Desculpa. — Não. — Jhon… — Não pede desculpa por acertar. Ela levantou a cabeça.
A frase voltava de uma noite antiga, no The Hollow Note. Sara pareceu reconhecer. Os olhos dela suavizaram, mas a tristeza permaneceu. — Eu não quero acertar isso — ela disse. Ele segurou a mão dela.
A scar mark no antebraço dele apareceu sob a manga. A tinta preta e vermelha já não ardia. Parecia parte do corpo agora. Sara tocou o ar perto da tatuagem, como fizera no dia em que ele a terminou. — A cicatriz que mantém laços pra vida toda — ela murmurou. — Sim. — Você acredita mesmo nisso? — Acredito. Ela olhou para ele.
— Então aprende que laço não é só ficar depois. Às vezes é chegar durante. Jhon fechou os olhos. Quis dizer que estava tentando. Quis dizer que não sabia como.
Quis dizer que havia algo nele sempre alguns segundos atrás do mundo. Não disse. Ficaram no sofá até tarde. Dessa vez, ficar foi presença. Mas também foi promessa. E promessas, em Veldmoor, sempre pareciam molhar antes de secar. Na semana seguinte, a mãe de Sara piorou de novo. A palavra usada pelo médico foi progressão. Jhon odiou.
A medicina, descobriu, também tinha seu dialeto para tornar tragédias mais suportáveis para quem precisava anunciá-las. Progressão. Complicação. Estabilização. Declínio. Conforto. Conduta. Palavras limpas. Como as da Lutheryn. Sara ouvia tudo com o rosto parado. Depois, no corredor, tremia. Em uma dessas tardes, ela mandou mensagem: Hoje eu preciso que você venha sem tentar resolver nada. Jhon respondeu: Vou. E foi.
Chegou ao hospital com vinte minutos de antecedência. Comprou café. Não levou planilha. Não falou de horários. Desligou o celular antes de entrar. Sentou ao lado dela na sala de espera e ficou. Sara chorou depois de meia hora. Não muito. Não como nos filmes.
Apenas encostou o rosto nas mãos e deixou o corpo ceder por alguns segundos. Jhon não disse que ia ficar tudo bem. Não disse que ela era forte. Não disse que entendia. Apenas colocou a mão nas costas dela, leve, e esperou. Depois de um tempo, Sara disse: — Hoje você veio certo. Ele queria sentir alívio. Sentiu medo. Porque entendeu que havia dias em que vinha certo. E outros, não. The Weight of Goodbye continuou esperando.
A Lutheryn não cancelou a faixa. Apenas adiou a interpretação de Jhon por alguns dias. Hartman não mencionou a saída dele da reunião. Isso era típico. Hartman guardava coisas em silêncio até o momento em que elas seriam mais úteis. Clara perguntou se ele estava bem. Ele respondeu que sim. Ela não acreditou.
Ravi comentou que a banda estava ensaiando como se todo mundo tivesse medo de encostar na próxima música. Jhon disse que era só adaptação. Ravi olhou para ele.
— Você sabe que às vezes eu faço piada porque é a única forma de não sair correndo, né? Jhon olhou para o amigo. Ravi raramente entregava frases sem embalagem. — Sei — disse, embora não soubesse até aquele momento. — Então. Essa música nova me dá vontade de não fazer piada. Aquilo disse mais do que qualquer crítica. Naquela noite, Jhon levou a demo para casa. Não queria abrir. Abriu.
O apartamento estava escuro. A guitarra no case. A chuva fina na janela. O notebook sobre a mesa. A mesma cena de Before I Was Real, mas agora havia outra pele sobre tudo. Como se a música anterior tivesse aberto uma porta e esta estivesse esperando do outro lado. Ele ouviu The Weight of Goodbye inteira. Uma vez. Sem tocar. Sem cantar. Sem interromper.
A letra, na cabeça dele, deixava de ser inglês e virava intenção: alguém segurando um adeus pesado demais para ser dito de uma vez. Alguém percebendo que amor não impede ausência. Alguém chegando com as mãos cheias de desculpas a uma sala onde a dor já tinha aprendido a ficar sozinha. Jhon pegou o caderno. Escreveu: Não cantar como fim. Cantar como alguém tentando impedir o fim. Parou. A frase era boa. Boa demais. Abriu as notas de intenção. Lá estava:
Não interpretar como encerramento. Interpretar como resistência ao encerramento. Jhon fechou o arquivo imediatamente. Levantou-se. Foi até a janela. O reflexo dele parecia mais escuro que a sala.
No vidro, a scar mark em seu antebraço apareceu como uma linha vermelha perto do corpo, deformada pela chuva.
Pela primeira vez, a tatuagem pareceu menos promessa e mais aviso. A pior noite daquele capítulo da vida deles começou sem drama. Era uma terça-feira. Chovia pouco.
A Lutheryn Labs estava em reunião sobre a faixa, novamente na sala ECHO. Hartman queria que a transição emocional entre Before I Was Real e The Weight of Goodbye fosse mais sutil. A equipe discutia se a entrada da voz deveria parecer frágil ou controlada. — Frágil demais vira manipulação — disse Clara. — Controlada demais vira indiferença — disse Ravi. Hartman olhou para Jhon. — E você? Jhon pensou em Sara. Pensou no hospital. Pensou na mãe dela dormindo com o rosto pequeno demais.
Pensou que talvez algumas palavras não devessem ser usadas em salas tão limpas. O celular vibrou. Sara. Chamaram a família. Jhon sentiu o corpo inteiro parar. Leu outra vez. Chamaram a família. Levantou. Hartman parou no meio da frase. — Jhon? — Preciso sair. — Estamos no ponto crítico da discussão. — Eu preciso sair. A sala inteira olhou. Hartman não. Hartman apenas o observou. — Sara? — perguntou. O nome dela na boca de Hartman soou errado. Jhon sentiu isso antes de pensar. — Sim. Hartman fechou o tablet devagar. — Vá. Jhon pegou o casaco. — Mas amanhã cedo preciso de você aqui — Hartman continuou. Jhon parou junto à porta. — O quê? — A faixa depende da sua leitura. Não da banda. Sua. O silêncio cresceu. Jhon deveria ter dito algo. Não disse. Saiu. O metrô atrasou. A chuva engrossou. Um acidente bloqueou parte da avenida próxima ao hospital. Jhon correu os últimos quatro quarteirões. Quando chegou ao St. Elian, Sara estava no corredor. Não chorava. Isso o assustou.
Havia uma calma muito fina no rosto dela, o tipo de calma que não vem da paz, mas de algo que passou do limite e já não encontra mais linguagem. — Eu cheguei — Jhon disse. Sara olhou para ele. — Ela dormiu. Ele entendeu antes que ela dissesse mais. O corredor perdeu som. Não completamente.
Ainda havia passos, vozes, máquinas, um telefone tocando em algum lugar. Mas tudo parecia vir debaixo d’água. — Sara… Ela balançou a cabeça. — Não. Ele parou. — Não agora. Jhon assentiu.
Ficaram ali, no corredor branco, como duas pessoas esperando instruções de um mundo que acabara de falhar. Depois de alguns minutos, Sara encostou a testa no peito dele. O corpo dela tremia. Só então chorou. Jhon a abraçou. Forte. Tarde. Mas forte. Depois do enterro, Veldmoor pareceu ainda mais cinza.
O dia não abriu. Não tentou. O céu permaneceu baixo, e a chuva veio fina, constante, respeitosa de um jeito que dava raiva. Pessoas com guarda-chuvas pretos formavam pequenos grupos no cemitério, falavam baixo, tocavam o ombro de Sara, diziam frases que ela provavelmente não escutava. Jhon ficou ao lado dela. Não sabia se perto demais. Não sabia se longe demais.
Sara usava preto. O cabelo preso. O rosto pálido. A scar mark dele, sob a manga, ardia sem arder. Em certo momento, alguém disse: — Pelo menos ela descansou. Sara fechou os olhos. Jhon sentiu a mão dela procurar a dele. Ele segurou. Só depois percebeu que ela tremia.
Quando tudo terminou, eles caminharam sem dizer nada até a rua. A chuva fazia pequenos círculos nas poças perto do portão. Um carro esperava por uma tia de Sara. Outro por uma vizinha. O mundo já organizava saídas. Sara não entrou em nenhum deles. — Quero andar — disse. Jhon assentiu. Caminharam por quase quarenta minutos.
Do cemitério até uma rua sem importância, depois até outra, depois até um trecho baixo perto do canal. A cidade passava ao redor deles em fachadas úmidas e janelas acesas. Sara parecia olhar tudo como se estivesse vendo uma versão duplicada do mundo: uma em que a mãe ainda existia, outra em que não. — Eu achei que ia sentir ela indo embora — disse. Jhon olhou para ela. — E sentiu? Sara balançou a cabeça. — Senti o mundo ficando mal organizado. Ele não soube o que dizer.
— Parece que tiraram uma coisa grande do lugar e ninguém explicou onde eu devo colocar o resto. Jhon apertou a mão dela. — Eu estou aqui. Sara olhou para ele. Não havia acusação no olhar. Só uma pergunta cansada. — Está? Ele sentiu a resposta chegar tarde. — Estou. Sara assentiu, mas não pareceu convencida.
O peso do adeus, Jhon entendeu naquele instante, não era apenas a morte.
Era tudo que a morte deixava para os vivos carregarem sem manual. Naquela noite, Sara dormiu no apartamento dele. Ou tentou.
Acordou três vezes. Na primeira, foi até a janela. Na segunda, pediu água. Na terceira, sentou-se no chão da sala e ficou olhando para nada. Jhon sentou-se ao lado dela. — Quer que eu ligue para alguém? — Não. — Quer deitar? — Não. — Quer que eu fique quieto? Ela virou o rosto para ele. — Quero que você pare de tentar adivinhar a resposta certa. Ele fechou a boca. Sara respirou fundo. — Desculpa. — Não precisa. — Preciso. Mas estou cansada de precisar também. Ela puxou a manga dele para cima e olhou para a tatuagem. — A cicatriz que mantém laços pra vida toda — murmurou. — Sim. — Parece bonito quando você diz. — Não é só bonito. — Eu sei. Ela tocou a pele ao redor da marca. — Mas laços pesam, Jhon. Ele olhou para ela. — Eu aguento. Sara fechou os olhos. — Essa é a coisa mais triste que você poderia dizer. — Por quê? — Porque eu não quero ser algo que você aguenta. O silêncio que veio depois não era vazio. Era aviso.
No dia seguinte, quando Jhon voltou à Lutheryn, Hartman perguntou apenas: — Como ela está? Jhon respondeu: — De luto. Hartman assentiu. — E você? A pergunta o pegou despreparado.
Jhon pensou em muitas respostas. Cansado. Preocupado. Atrasado. Inútil. Com raiva. Com medo. — Funcional — disse. Hartman o observou por tempo demais. — Ainda bem.
Naquela tarde, Jhon gravou a primeira guia vocal de The Weight of Goodbye. Cantou como alguém tentando impedir o fim. E, por isso mesmo, a música doeu mais.